Portuguese poem
Á Terra
by Manuel de Arriaga (1840–1917)
Oh Terra, Virgem mãe da Humanidade, Pelos fructos que dás eu te bemdigo! Cheia de graça e cheia de bondade, O espirito de Deus seja comtigo!
Tu que és do Sol a esposa immaculada, Que entre perfumes, canticos e flôres, Passas no azul dos ceus, virgem coroada Com o candido mimbo dos amores:
Como escuta piedosa a mãe seu filho, E d'elle acceita o mais pequeno objecto, Ouve a harpa d'esta alma onde dedilho Por ti um canto d'entranhado affecto!
Um canto aonde a propria naturesa, Em cujo seio o astro meu se inspira, Reflecte o seu conjuncto de belleza, Unindo a eterna vóz á vóz da lyra!
O mar que te circunda a fronte bella, Que espelha ao longe a luz que o Sol t'envia; Te muda a negra crosta em linda estrella, E dá-te um canto cheio de harmonia;
E o subtil pingo d'agua onde escondes-te D'inquietos vibriões um mar profundo, Tão vasto como a abbobada celeste, Contendo a tantos como os soes do mundo;
A arvore a prumo erguida ao firmamento, Posta por Deus na paz a mais completa, Quando, ao passar-lhe o espirito do vento, Descanta como a harpa d'um propheta:
E a semente da flôr, qual grão d'areia, Que, inerte, fria, escura e pequenina, Contém as pompas da divina ideia: O lyrio branco ou a rosa purpurina;
O leão, implacavel creatura, Quando a victima arrasta inda arquejante Tinto de sangue, offerta-a com ternura Á leôa parida, sua amante:
E a indefeza timida ovelhinha, Entre as flôres gentis do verde prado. Meiga balando á mãe que se avesinha, Por dar-lhe o leite doce e perfumado;
A aguia quando solta a envergadura Das largas azas pelo azul do espaço, E, em marcha triumphal, a enorme altura Passa nos céus sem lucta, e sem cançaço;
E a crysalida que abre á luz do dia Do involucro o sedifero thesouro, E, nos enlevos d'intima alegria, Expande á luz do Sol as azas d'ouro:
Quanto, emfim, é teu filho a mim me pede, Que em nome d'elles eu te louve e cante, Suppondo achar n'esta alma o centro, a séde, O altar, de quanto o Sol lhe põe diante!...
Oh minha mãe! a magua me entristece De que Deus, cujas dadivas divide Por tanta gente, a mim me não cedesse Para cantar-te a harpa de David!...
Dos proprios paes e estranhos mal tratado, Fui pôr-me á tua sombra hospitaleira, E em teu seio de mãe abençoado Achei d'esta alma a patria verdadeira!
Não sei como surgio o homem na terra!... Não sei onde os meus sonhos se dirigem...; Mas quanto bello e bom minha alma encerra, Em ti encontra a perenal origem!...
Quer sobre os cumes dos altivos montes, Quer á sombra dos vales verdejantes; Quer ouça a meiga vóz das claras fontes, Quer as furias das ondas espumantes:
Por onde quer que eu vá, minha alma sente Cercal'a tão solicito cuidado, Que quanto me concebe um dia a mente, Encontra sempre em ti o objecto amado!...
Por isso, embora eu viva como o paria Junto ás margens do Ganges crystalino, Levando vida incerta, rude e varia, Entre os baldões d'um impobro destino:
Vivo entre flôres, musicas e festas, Tendo por luz suprema o pensamento; Por palacios as múrmuras florestas, E alampadas os soes no firmamento!
Por orchestras as musicas plangentes Que geme ao longe o mar no captiveiro, Com os concertos das aves innocentes, E os murmurios do limpido ribeiro!
De manhã, com os crystaes do fresco orvalho, Fulgentes scintiliando á luz do dia, Pisam meus pés, riquissimo trabalho, Tapetes de preciosa pedraria!
Á tarde, quando o sol deixa as alturas, Qual Vinci, Miguel Angelo ou Ticiano, Pões-me nos ceus esplendidas figuras, Como eguaes as não tem o Vaticano!...
Á hora em que é dado o somno acoite Em doce paz meu corpo fatigado, Desdobras-me sobre elle o veu da noite, De fulgidos brilhantes recamado!...
E quando, emfim, entrar na noite fria Do tumulo, onde nada se condemna, Do meu cadaver tirarás um dia O branco lyrio e a pudica açucena!...
Taes os bens que offertas-te ás almas ternas, Simples, crentes em Deus, ideal fecundo...! E dás-lhes n'estas coisas sãs e eternas Bem mais riquezas do que aos reis do mundo!...
E assim vaes entre os soes deixando o aroma Dos ineffaveis dons da Providencia, Como exhala riquissima redoma Em dourado salão a fina essencia!...
Oh Terra, Virgem mãe da Humanidade, Pelos fructos que dás eu te bemdigo! Cheia de graça, e cheia de bondade, O espirito de Deus seja comtigo!
Carvalhaes, 1870.