Portuguese poem
+Elmano.+
by Manuel Maria Barbosa du Bocage
Sim, meu amado, meu leal Francino, Eu dou mil graças ao Poder Divino Por me livrar do engano em que vivia, Eu lutarei c'o a terna sympathia, Que me fez adorar huma inconstante, Aos falsos Crocodilos semelhante. Embora logre Inálio os seus agrados Fingidos, mentirosos, estudados. O sórdido interesse he quem a inspira: Se da Fortuna o meu Rival sentíra A triste, perniciosa variedade, Se a violencia de horrivel Tempestade Lhe derribasse as férteis Oliveiras, Se o fogo lhe engolisse as Sementeiras, Se a Chêa lhe afogasse os nedios Gados, Verias em desdens, e em desagrados Mudar-se logo o amor, que finge a astuta, Que de negra cubiça a voz escuta: Tu a verias outra vez comigo As chammas assoprar do affecto antigo, Mendigando razões para applacar-me, Para me convencer, para enganar-me. Mas ah paixão! Teu ímpeto reprime, E busque-se vingança igual ao crime. Ritália bella, encanto dos Pastores, Merece meus suspiros, meus amores: Com ella fui mil vezes desatento, Negando-lhe o devido acatamento Por cumprir o preceito rigoroso De Urselina infiel, que no enganoso, No detestavel peito encerra, e nutre Da venenosa Inveja o feio Abutre, Porque a meiga Ritália he mais do que ella Branda, risonha, delicada, e bella Quanto he mais agradavel, mais formosa Que as outras flores a punícea rosa. Ritália desde agora o lindo objecto Será do meu fiel, constante affecto: Arrebatado em extasis de gosto, Louvores de seus olhos, de seu rosto Farei voar nas azas da ternura, E assim me vingarei d'huma perjura. Ella, por timbre meu, o escute, o saiba, E o Coração no peito lhe não caiba De inveja, de furor: eu, entretanto, Troque em placido riso o triste pranto, E a fria indifferença, com que intento Recompensar-lhe o torpe fingimento, Até tão alto gráo nesta alma creça, Que eu veja a desleal, e a não conheça.