Portuguese poem
+Francino.+
by Manuel Maria Barbosa du Bocage
Consola-te, Pastor; essa perjura Não deve motivar tua amargura; Castiga-lhe a traição, e o fingimento Lançando-a n'um profundo esquecimento. Que mais satisfação, que mais vingança Queres da vil, da subita mudança, Que ver expósta a pérfida Pastora Ao ludibrio geral? Huma traidora, Huma féra, huma ingrata, inda que bella, Não merece a paixão, que tens por ella. Pondera, que não foste injuriado De seu duro desprezo inesperado, Que o feminil capricho extravagante Não te deslustra o mérito brilhante. Nenhum, nenhum Pastor n'Aldêa ignora, Que essa, que te deixou, foi atégora Carinhosa comtigo, e fez patente Sua correspondencia a toda a Gente: Demonstrações em público te dava De amorosa paixão, mas não te amava: Baixo costume, natural fraqueza He que a fez parecer de amor acceza; Aquella alma não arde, não se inflama, A todos corresponde, a ninguem ama. Bem se vio com Bersálio, e com Laurénio Seu inconstante, seu voluvel genio: Té no mais desprezivel dos Pastores He capaz de empregar seus vis amores, Nunca soube escolher, tudo lhe agrada, E inda que astutamente infatuada Faça crer aos Amantes o contrario, He já sabido seu caracter vario. Isto em teu coração gravado fique, E não queiras, Pastor, maior despique: Se atégora calei quanto te digo, Foi por não te affligir, prezado Amigo. Pouco importa perder quem nada valle. Contente-te, que toda a Aldêa falle Contra a sua imprudente aleivosia, Que, se pensasse bem no que o fazia, Jámais o falso Monstro, que te deixa, Fechára a tudo os olhos como feixa. Deveria lembrar-se a fementida De que a sua affeição foi conhecida, De que inda em tuas mãos tens os penhores De seus furtivos, tacitos favores, Para não te obrigar com tal injúria A que dos zelos a violenta furia Despedaçasse hum véo mysterioso, Hum véo tão necessario como honroso. Mas verás se mais hora menos hora Não he punida a infiel Pastora: Doiradas esperanças lisongeiras Nutrem-lhe idéas vãs, e interesseiras; Mas Inálio he como ella ambicioso, E só deseja hum Hymenêo lucroso, Que lhe farte a cubiça, os bens lhe augmente: Elle proprio mo disse, elle não mente, Que a sua natural simplicidade Não póde mascarar a sã verdade. Eia, pois, cesse o pranto, enxuga o rosto, Adora a Providencia em teu desgosto, Não delires, Pastor, não desesperes, Que és feliz em saber quem são Mulheres.