Portuguese poem
+Elmano.+
by Manuel Maria Barbosa du Bocage
Quem, senão ella (oh Ceos!) me obrigaria A tão pasmoso extremo? A Sorte impía Com todo o seu poder nunca tem feito Desmaiar a constancia de meu peito: Quem me abate he Amor, não o Destino. Eu te conto o meu mal, eu vou, Francino, Retratar-te a mais negra, a mais horrivel De todas as traições. Não he possivel Nos Ermos encontrar da Lybia ardente Monstro, seja Leão, seja Serpente, Que possa comparar-te á Féra humana, Que com tanto rigor me desengana. Quantas vezes notaste, honrado Amigo, Finezas, que a traidora obrou comigo! Quantas vezes daqui presenciaste Seus gestos, seus affagos, e julgaste, Que o mais ardente amor, a fé mais pura Pagavão minha candida ternura! Ouve, e conhecerás (ai de mim triste!) Que foi sonho, illusão tudo o que viste. Já sabes, que no dia em que ligado A Marcia Jonio foi pelo sagrado, Indissoluvel nó, cantei louvores A tão ditosos, tão fiéis amores, E o número augmentei dos Convidados; Já sabes as meiguices, e os agrados, Com que a minha infiel me fez ditoso: Alli, traçando hum baile harmonioso, Por parceiro me quiz; alli sentada Junto a mim, vezes mil a refalsada Protestou, que em sua alma eu só vivia, Que eu era de seus olhos a alegria, Dando-me a bella mão furtivamente, Que, ardendo de paixão, beijei contente. Pedio-me o desleal, que alli tornasse, Que tão doce prazer lhe não roubasse: Guiado por Amor, fui inda agora Seu desejo cumprir, que antes não fora, Porque não sentiria este martyrio, Este ardor, esta raiva, este delirio. Jonio, que estava á porta da Cabana, Me veio receber... ah! Quanto engana Huma apparencia alegre, e carinhosa! Entrei, puz logo os olhos n'aleivosa, Que, em vez de me tratar com meigo agrado, Tinha nas faces o desdem pintado. Pasmando da mudança repentina, Lhe disse: amado bem, cara Urselina, Tu comigo tão aspera? Eu ignoro Em que pude aggravar quem tanto adoro. Isto dizendo, avizinhei-me a ella, Que estava ao pé da rustica janella, E da térna pergunta não fez caso, Nem o rosto voltou, e olhando acaso Á proxima Cabana de Nigélla, Vi encostado Inálio á porta della Olhar para Urselina, a Deos dizer-lhe, E sem pejo a Cruel corresponder-lhe C'um doce riso, hum gesto namorado, De amantes expressões acompanhado. Fervendo-me no peito o amor, e a ira, Logo, logo em pedaços fiz a Lira, E em mil imprecações, em mil queixumes O furor exhalei dos meus ciumes, Ameaçando a infiel, que eu me vingava No odioso Rival, que me affrontava, Se huma satisfação, que Inálio visse, Logo o meu pundonor não ressarcisse. Prometeo-me, que sim, mas de repente A meus olhos se esconde, e vai contente O lérdo, o baixo Amante encher de gloria, Que não cabia em si pela victoria, Que a peor das traições lhe tinha dado. Fiquei louco, fiquei desesperado, Contemplando este assombro nunca visto Nem na imaginação. Não pára nisto Daquella ingrata a pérfida baixeza: De novas fúrias cruelmente acceza, Procura Aónio, inerte Pegureiro Que he o riso da gente no Terreiro Quando sahe a bailar, a cada passo Se esquece da harmonia, e do compasso, Sendo falto de prendas, e de sizo Como o louco Magálio, o rude Anfrizo. Urselina lhe diz, que me incitasse A que a Choça de Jonio abandonasse, Persuadindo-me, emfim, que não devia Presenciar a affronta, que soffria. Acreditei o indigno Conselheiro, E sahi da Cabana, onde primeiro Tinha logrado os mimos da perjura, Que assim desenganou minha ternura. Ah genio desleal, fallaz, perverso! Daquillo, que pensei, como és diverso! Ai! Não me allucinava o meu ciume, Era mais do que justo o meu queixume, Quando (triste de mim!) quando julgava Que Inálio, inda que simples, te agradava! Accusei-te mil vezes de fingida, De que a elle querias vêr-te unida Em laços de Hymenêo; mas tu negaste Sempre o que hoje sem pejo declaraste. Traidora! Eu não dizia, eu não jurava, Que o meu socego ao teu sacrificava! Ah! Porque me não déste o desengano, Que eu te pedia, Coração tyranno? Se Inálio, porque tem Campos, e Gados, Numerosos Casaes, amplos Montados, Attrahe esse teu genio interesseiro, E eu, posto que leal, que verdadeiro, De clara geração, de sangue honrado, Caducos, frageis bens não devo ao Fado, E por isso não posso no teu peito Produzir da ternura o doce effeito; Que razão te obrigou a acarinhar-me, E de hum fingido amor capacitar-me? Coração, em perfidias atolado, Impia, se o não tivesse inda creado A vingadora Mão de Jove Eterno, Devia para ti crear o Inferno.