Portuguese poem
Rodopio
by Mário de Sá-Carneiro (1890–1916)
Volteiam dentro de mim, Em rodopio, em novelos, Milagres, uivos, castelos, Forcas de luz, pesadelos, Altas torres de marfim.
Ascendem helices, rastros... Mais longe coam-me soís; Ha promontorios, farois, Upam-se estatuas d'herois, Ondeiam lanças e mastros.
Zebram-se armadas de côr, Singram cortejos de luz, Ruem-se braços de cruz, E um espelho reproduz, Em treva, todo o esplendor...
Cristais retinem de medo, Precipitam-se estilhaços, Chovem garras, manchas, laços... Planos, quebras e espaços Vertiginam em segredo.
Luas d'oiro se embebedam, Rainhas desfolham lirios; Contorcionam-se cirios, Enclavinham-se delirios. Listas de som enveredam...
Virgulam-se aspas em vozes, Letras de fogo e punhais; Ha missas e bacanais, Execuções capitais, Regressos, apoteoses.
Silvam madeixas ondeantes, Pungem labios esmagados, Ha corpos emmaranhados, Seios mordidos, golfados, Sexos mortos d'anseantes...
(Ha incenso de esponsais, Ha mãos brancas e sagradas, Ha velhas cartas rasgadas, Ha pobres coisas guardadas-- Um lenço, fitas, dedais...)
Ha elmos, troféus, mortalhas, Emanações fugidias, Referencias, nostalgias, Ruinas de melodias, Vertigens, erros e falhas.
Ha vislumbres de não-ser, Rangem, de vago, neblinas; Fulcram-se poços e minas, Meandros, pauis, ravinas Que não ouso percorrer...
Ha vácuos, ha bolhas d'ar, Perfumes de longes ilhas, Amarras, lemes e quilhas-- Tantas, tantas maravilhas Que se não podem sonhar!...
Paris--maio 1913.
XII--A Queda