Versos Portuguese Mário de Sá-Carneiro Partida

Portuguese poem

Partida

by (1890–1916)

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Ao ver escoar-se a vida humanamente Em suas águas certas, eu hesito, E detenho-me às vezes na torrente Das coisas geniais em que medito.

Afronta-me um desejo de fugir Ao mistério que é meu e me seduz. Mas logo me triunfo. A sua luz Não há muitos que a saibam reflectir.

A minh'alma nostálgica de além, Cheia de orgulho, ensombra-se entretanto, Aos meus olhos ungidos sobe um pranto Que tenho a fôrça de sumir também.

Porque eu reajo. A vida, a natureza, Que são para o artista? Coisa alguma. O que devemos é saltar na bruma, Correr no azul à busca da beleza.

É subir, é subir além dos céus Que as nossas almas só acumularam, E prostrados em rezar, em sonho, ao Deus, Que as nossas mãos de auréola lá douraram.

É partir sem temor contra a montanha Cingidos de quimera e de irreal; Brandir a espada fulva e medieval, A cada hora acastelando em Espanha.

É suscitar côres endoidecidas, Ser garra imperial enclavinhada, E numa extrema-unção de alma ampliada, Viajar outros sentidos, outras vidas.

Ser coluna de fumo, astro perdido, Forçar os turbilhões aladamente, Ser ramo de palmeira, água nascente, E arco de ouro e chama distendido...

Asa longínqua, a sacudir loucura, Nuvem precoce de subtil vapor, Ânsia revôlta de mistério e olor, Sombra, vertigem, ascensão - Altura!

E dou-me todo neste fim de tarde, À espira aérea que me eleva aos cumes. Doido de esfinges o horizonte arde, Mas fico ileso entre clarões e gumes!...

Miragem roxa de nimbado encanto - Sinto meus olhos a volver-se em espaço! Alastro, venço, chego e ultrapasso; Sou labirinto, sou licorne e acanto.

Sei a distância, compreendo o Ar; Sou chuva de ouro e sou espasmo de luz; Sou taça de cristal lançada ao mar, Diadema e timbre, elmo real e cruz...

O bando das quimeras longe assoma... Que apoteose imensa pelos céus! A côr já não é côr - É som e aroma! Vêm-me saüdades de ter sido Deus...

Ao triunfo maior, avante pois! O meu destino é outro - é alto e é raro. Ùnicamente custa muito caro: A tristeza de nunca sermos dois...