Portuguese poem
Ii
by Maximiliano de Azevedo (1850–1911)
A noite tenebrosa, a noite dos horrores, Estendia feroz as suas negras cores Sobre a Europa abatida e sobre a terra inteira; Apenas o clarão sinistro da fogueira Illuminava a custo aquella triste scena; Sentia-se um rumor como o rugir da hyena, Havia um cheiro forte e acre e nauseabundo Subindo em espiraes pelo azul profundo; A carne a crepitar!.. Os gritos lancinantes!.. Como orgia infernal de velhos Corybantes!
Uma sombra indecisa, impavida e soturna Fluctuava ali á viração nocturna; Era a sombra do Mal--o negro pavilhão Que tinha escripto em sangue um lemma: Religião! E sobre cada corpo, e sobre esses destroços. Conjuncto informe e nú de carnes e de ossos, Andavam a pairar abutres esfaimados, Despedaçando ainda os membros trucidados!
Humildes, evocavam o nome de Jesus, --O nome da Justiça, o explendor, a Luz; Traziam n'uma mão um velho Breviario; A outra segurava o facho incendiario, Um Christo sobre o peito, aos hombros uma estola...
Era a turba feroz dos filhos de Loyolla.
Portugal acordou, emfim, do seu lethargo; Esgotára de todo o calix mais amargo.
Um homem, um gigante, um genio portentoso Erguera-se de pé, n'um brado poderoso, E disse sem temor áquellas turbas vis.
«Hyenas! recolhei ao fundo dos covis! Largai a vossa presa, oh tigres sanguinarios! De joelhos, chacaes! malditos salafrarios! Hei-de lavar com sangue o sangue da Innocencia, Matar-vos como cães, matar-vos sem clemencia, E arrojar, porfim, ás fauces do abysmo, Os vossos corpos nús e o vosso Fanatismo...
«A verdadeira Fé succede à Hypocrisia; A Noite terminou, reaparece o Dia!»
E o braço poderoso e forte de Pombal Arrebatou da treva o velho Portugal, Para lançar a Luz, para lançar a Gloria, Sobre elle, que era só recordação na Historia.
Exhausto e abatido ao sopro da desgraça, Vergado ao Fanatismo--esse tufão que passa E tenta destruir os brilhos da Rasão-- Sentia emmurchecer na sua heroica mão Os louros que colhêra ao sol de cem batalhas. Calára-se o canhão; o fumo das metralhas Ja não tostava a tez aos bravos defensores De Diu e de Malaca! Esses conquistadores Que tinham offuscado o nome de Veneza, Que tinham concebido a audaciosa empresa, --Na febre do valor, febre de triumphar,-- De avassalar a terra e submetter o mar; Esse povo de heroes, titanico, indomavel, Que dera ao mundo leis e fôra inconquistavel, Já não queria colher da Heroicidade a palma.
Elle cuidava só... na salvação da Alma!