Portuguese poem
Abstração
by Olavo Bilac (1865–1918)
Há no espaço milhões de estrelas carinhosas, Ao alcance do teu olhar... Mas conjeturas Aquelas que não vês, ígneas e ignotas rosas, Viçando na mais longe altura das alturas.
Há na terra milhões de mulheres formosas, Ao alcance do teu desejo... Mas procuras As que não vivem, sonho e afeto que não gozas Nem gozarás, visões passadas ou futuras.
Assim, numa abstração de números e imagens, Vives. Olhas com tédio o planeta ermo e triste, E achas deserta e escura a abóbada celeste.
E morrerás, sozinho, entre duas miragens: As estrelas sem nome - a luz que nunca viste, E as mulheres sem corpo - o amor que não tiveste!