Portuguese poem
Milagre
by Olavo Bilac (1865–1918)
É nestas noites sossegadas, Em que o luar aponta, e a fina, Móbil e trêmula cortina Rompe das nuvens espalhadas;
Em que no azul espaço, vago, Cindindo o céu, o alado bando, Vai das estrelas caminhando Aves de prata à flor de um lago;
E nestas noites - que, perdida, Louca de amor, minh'alma voa Para teu lado, e te abençoa, Ó minha aurora! ó minha vida!
No horrendo pântano profundo Em que vivemos, és o cisne Que o cruza, sem que a alvura tisne Da asa no limo infecto e imundo.
Anjo exilado das risonhas Regiões sagradas das alturas, Que passas puro, entre as impuras Humanas cóleras medonhas!
Estrela de ouro calma e bela, Que, abrindo a lúcida pupila, Brilhas assim clara e tranqüila Nas torvas nuvens da procela!
Raio de sol dourando a esfera Entre as neblinas deste inverno, E nas regiões do gelo eterno Fazendo rir a primavera!
Lírio de pétalas formosas, Erguendo à luz o níveo seio, Entre estes cardos, e no meio Destas eufórbias venenosas!
Oásis verde no deserto! Pássaro voando descuidado Por sobre um solo ensangüentado E de cadáveres coberto!
Eu que homem sou, eu que a miséria Dos homens tenho, - eu, verme obscuro, Amei-te, flor! e, lodo impuro, Tentei roubar-te a luz sidérea...
Vaidade insana! Amar ao dia A treva horrenda que negreja! Pedir a serpe, que rasteja, Amor à nuvem fugidia!
Insano amor! vaidade insana! Unir num beijo o aroma à peste! Vazar, num jorro, a luz celeste Na escuridão da noite humana!
Mas, ah! quiseste a ponta da asa, Da pluma trêmula de neve Descer a mim, roçar de leve A superfície desta vasa...
E tanto pôde essa piedade, E tanto pôde o amor, que o lodo Agora é céu, é flores todo, E a noite escura é claridade!