Portuguese poem
O Rio
by Olavo Bilac (1865–1918)
Da mata no seio umbroso, No verde seio da serra, Nasce o rio generoso, Que é a providência da terra.
Nasce humilde, e, pequenino, Foge ao sol abrasador; É um fio d’água, tão fino, Que desliza sem rumor.
Entre as pedras se insinua, Ganha corpo, abre caminho, Já canta, já tumultua, Num alegre burburinho.
Agora o sol, que o prateia, Todo se entrega, a sorrir; Avança, as rochas ladeia, Some-se, torna a surgir.
Recebe outras águas, desce As encostas de uma em uma, Engrossa as vagas, e cresce, Galga os penedos, e espuma.
Agora, indômito e ousado, Transpõe furnas e grotões, Vence abismos, despenhado Em saltos e cachoeirões.
E corre, galopa. cheio De força; de vaga em vaga, Chega ao vale, larga o seio, Cava a terra, o campo alaga...
Expande-se, abre-se, ingente, Por cem léguas, a cantar, Até que cai, finalmente, No seio vasto do mar...
Mas na triunfal majestade Dessa marcha vitoriosa, Quanto amor, quanta bondade Na sua alma generosa!
A cada passo que dava O nobre rio, feliz Mais uma árvore criava, Dando vida a uma raiz.
Quantas dádivas e quantas Esmolas pelos caminhos! Matava a sede das plantas E a sede dos passarinhos...
Fonte de força e fartura, Foi bem, foi saúde e pão: Dava às cidades frescura, Fecundidade ao sertão...
E um nobre exemplo sadio Nas suas águas se encerra; Devemos ser como o rio, Que é providência da terra:
Bendito aquele que é forte, E desconhece o rancor, E, em vez de servir a morte, Ama a Vida, e serve o Amor!