Portuguese poem
O Sonho de Marco Antônio
by Olavo Bilac (1865–1918)
Noite. Por todo o largo firmamento Abrem-se os olhos de ouro das estrelas... Só perturba a mudez do acampamento O passo regular das sentinelas.
Brutal, febril, entre canções e brados, Entrara pela noite adiante a orgia; Em borbotões, dos cântaros lavrados Jorrara o vinho. O exército dormia.
Insone, entanto, vela alguém na tenda Do general. Esse, entre os mais sozinho, Vence a fadiga da batalha horrenda, Vence os vapores cálidos do vinho.
Torvo e cerrado o cenho, o largo peito Da couraça despido e arfando ansioso, Lívida a face, taciturno o aspeito, Marco Antônio medita silencioso.
Da lâmpada de prata a luz escassa Resvala pelo chão. A quando e quando, Treme, enfunada à viração que passa, A cortina de púrpura oscilando.
O general medita. Como, soltas Do álveo de um rio transvazado, as águas Crescem, cavando o solo, - assim, revoltas, Fundas a alma lhe vão sulcando as mágoas.
Que vale a Grécia, e a Macedônia, e o enorme Território do Oriente, e este infinito E invencível exército que dorme? Que doces braços que lhe estende o Egito!...
Que vença Otávio! e seu rancor profundo Leve da Hispânia à Síria a morte e a guerra! Ela é o céu... Que valor tem todo o mundo, Se os mundos todos seu olhar encerra?!
Ele é valente e ela o subjuga e o doma... Só Cleópatra é grande, amada e bela! Que importa o império e a salvação de Roma? Roma não vale um só dos beijos dela!...
Assim medita. E alucinado, louco De pesar, com a fadiga em vão lutando, Marco António adormece a pouco e pouco, Nas largas mãos a fronte reclinando.
A harpa suspira. O melodioso canto, De uma volúpia lânguida e secreta, Ora interpreta o dissabor e o pranto, Ora as paixões violentas interpreta.
Amplo dossel de seda levantina, Por colunas de jaspe sustentado, Cobre os cetins e a caxemira fina Do régio leito de ébano lavrado.
Move o leque de plumas uma escrava. Vela a guarda lá fora. Recolhida, Os pétreos olhos uma esfinge crava Nas formas da rainha adormecida.
Mas Cleópatra acorda... E tudo, ao vê-la Acordar, treme em roda, e pasma, e a admira: Desmaia a luz, no céu descora a estrela, A própria esfinge move-se e suspira...
Acorda. E o torso arqueando, ostenta o lindo Colo opulento e sensual que oscila. Murmura um nome e, as pálpebras abrindo, Mostra o fulgor radiante da pupila.
Ergue-se Marco Antônio de repente... Ouve-se um grito estrídulo, que soa O silêncio cortando, e longamente Pelo deserto acampamento ecoa.
O olhar em fogo, os carregados traços Do rosto em contração, alto e direito O vulto enorme, - no ar levanta os braços, E nos braços aperta o próprio peito.
Olha em torno e desvaira. Ergue a cortina, A vista alonga pela noite afora. Nada vê. Longe, à porta purpurina Do Oriente em chamas, vem raiando a aurora.
E a noite foge. Em todo o firmamento Vão se fechando os olhos das estrelas: Só perturba a mudez do acampamento O passo regular das sentinelas.