Portuguese poem
Reisado do José do Vale
by Sílvio Romero (1851–1914)
Minha mãe assuba, Fale como gente; Assuba o palácio, Fale ao presidente. Pegue na cabocla, Dê-lhe co'o bordão, Qu'ela foi a causa Da minha prisão, A minha prisão Foi ao meio dia, Nas casas estranhas Com grande agonia. Mortinho à fome. Mortinho à sede, Só me sustentava Em caninha verde. - “Dona, por aqui? Grande novidade. . . "Vim soltar um preso Cá nesta cidade. . . Senhor presidente, Que dinheiro vale? Tenho duzentos contos Por José do Vale. - "Dona, vá-se embora, Qu'eu não solto, não; Que seu filho é mau, Tem ruim coração; Matou muita gente Lá nesse sertão; Da minha justiça Não faz conta, não. "Tenho meu lacaio De minha estimação, Pra seu presidente Não tem preço, não. Senhor presidente, Pelo incontinente Solte Zé do Vale, Pelo sacramento! "Senhor Presidente, Não abra a porta, não; Se eu cair na rua, Faco escalação.." "Minha mãe, vá-se embora, Deixe de cegueira, Qu'eu hei de ser solto No Rio de Janeiro." "Quem tiver seu filho Dê-lhe ensinação, Prá nunca passar Dor de coração; Quem tiver seu filho Dê-lhe todo o dia, Ao depois não passe. Dores de agonia." "Adeus, minha mãezinha, Mãe do coração; Dê lembranças a Aninha, E a meu mano João; Mana, vá-se embora, Guarde o seu dinheiro, Qu'eu vou me soltar No Rio de Janeiro."
(Segue-se o Bumba-meu-boi)