Portuguese poem
Reisado do Cavalo Marinho e do Bumba-Meu-Boi
by Sílvio Romero (1851–1914)
CENA I
(O Cavalo marinho a dançar e o Coro)
Coro:
Cavalo-marinho Vem se apresentar, A pedir licença Para dançar. Cavalo-marinho, Por tua atenção Faz uma mesura A seu capitão. Cavala-marinho Dança muito bem; Pode-se chamar Maricas meu bem. Cavalo-marinho Dança bem baiano; Bem parece ser Um pernambucano. Cavalo-marinho Vai para a escola Aprender a ler E a tocar viola. Cavalo-marinho Sabe conviver; Dança o teu balanço Que eu quero ver. Cavalo-marinho, Dança no terreiro; Que o dono da casa Tem muito dinheiro. Cavalo marinho, Dança na calçada; Que o dono da casa Tem galinha assada. Cavalo-marinho, Você já dançou: Mas porém lá vai, Tome que eu lhe dou. Cavalo-marinho, Vamo-nos embora; Faze uma mesura Á tua senhora. Cavalo-marinho, Por tua mercê, Manda vir o boi Para o povo ver.
CENA II
(O Amo, o Arlequim, o Mateus, o Boi, o Coro, o Sebastião e o Fidelis.)
O' arlequim, O' pecados meus, Vai ,chamar Fidelis, E também Mateus. O' meu arlequim. Vai chamar Mateus, Venha com o boi E os companheiros seus.
Arlequim:
O' Mateus, vem cá. Sinhô está chamando; Traze o teu boi, E venhas dançando. Só achei o Mateus, Não achei Fidelis; Bem se diz que negro Não tem dó da pele.
Amo:
O' Mateus, cadê o boi?
Mateus:
Olá, olá, olá, Boio tá p 'ra cá, Boio tá p'ra cá. . . Se minha boio chegou Eu tá aqui; E que foi esse Pur aqui? O' meu xinhô, Cadê-lo o Bastião, Cadê-Ia- o Fidere? Para onde fôro? Venham cá vocês (para o coro) E também o boio.
Coro: Vem, meu boi lavrado, Vem fazer bravura, Vem dançar bonito, Vem fazer mesura, Vem fazer mistérios, Vem fazer beleza; Vem mostrar o que sabes Pela natureza. Vem dançar, meu boi, Brinca no terreiro; Que o dono da casa Tem muito dinheiro. Este boi bonito Não deve morrer; Porque só nasceu Para conviver.
Mateus:
O' boio, dare de banda, Xipaia esse gente, Dare pra trage, E dare pra frente. . . Vem mai pra baxo, Roxando no chão E dá no pai Fidere, Xipanta Bastião. . . Vem pra meu banda Bem difacarinha, Vai metendo a testa No Cavalo-marinha. Ô, ô, meu boio, Desce desse casa, Dança bem bonito No meio da praça. .. Toca esse viola, Pondo bem miúdo; Minha boio sabe Dançá bem graúdo.
Coro:
Toca bem esta viola No baiano gemedô, Que o Mateus e o Fidelis São dois cabras dançadô. No passo da juriti, Tico-tico, rouxinó, Se Fidelis dança bem, O Mateus dança milhó. O tocadô da viola Tem os olhos muito esperto, O som da sua viola Parece~me um céu aberto. Eu quero boa viola Para fazer toda a festa, O bom pandeiro concerta O samba na floresta. Eu fui dos que nasci Na maré dos caranguejos, Quanto mais carinhos faço, Mais desprezado me vejo. Como sou filho do povo, Tenho o dom da natureza; Não sou feliz, mas bem passo Com toda a minha pobreza. Dança o boi, dança o Mateus, Dançam todos os vaqueiros; Dançam que hoje nós temos Grande festa no terreiro.
Mateus:
Para, para, para! Quero dizer um recado: - Boi dançou, dançou; Mai agora tá deitado!
Sebastião:
Ah! pracêro meu, Boio de sinhô morreu. . .
Mateus:
A t'embora, bobo, O boio divertiu muito, Agora ficou cansado; Toca bico do ferrão, Pra tu vê como arrevira E te dá no chão.
CENA III
(Os mesmos, o Doutor, Capitão do mato, D. Frigideira, Catarina, e o Padre; caído o boi, foge F'ielelis, chama-se um capitão do campo para o prender e um Doutor para curar o Boi; aparece um Padre para fazer o casamento ele Catarina.)
Mateus:
Minha boi morreu! Que será de mim? Manda buscá outro Lá no Piauí.
Amo:
O' Mateus,cadê o boi?
Mateus:
Sinhô, O boi morreu. . .
(Sai o Mateus espancado pelo amo)
Amo:
Ó Mateus vá chamar O doutor para curar O meu rico boi: Quero saber do Fidelis Para onde foi. Ó Sebastião, vá a toda a pressa, Chame o Capitão do mato, Dê as providência, Que traga o Fidelis Na minha presência.
(Chegando o Doutor, ajusta com o Amo a cura do Boi; chegam D. Frigideira e Catanrina, e Sebastião quer casar com esta; aparece o Padre para este fim.)
Padre:
Quem me ver estar dançando Não julgue que estou louco; Não sou padre, não sou nada; Singular sou como os outros.
Coro:
Ó chente', que quer dizer Um padre nesta função? É sinal de casamento, Ou alguma confissão.
Padre::
Bula hem na prima, Bata no bordão; Arribo a função, Não se acabe não.
Doutor para Mateus:
Ó negro, teu desaforo Já chegou aonde foi; Quando tu me chamares É prá gente e não pra boi.
Mateus:
Ah! uê, ah! uê! Troco miúdo Tu vai recebê.
(O Capitão campo dá com o Fidelis e vai prende-lo.)
Capitão:
Eu te atiro, negro, Eu te amarro, ladrão, Eu te acabo, cão.
(O Fidelis vai sobre o Capitão e o amarra.)
CORO:
Capitão de campo, Veja que o mundo virou, Foi ao mato pegar negro, Mas o negro lhe amarrou.
Capitão:
Sou valente afamado, Como eu pode não haver; Qualquer susto que me fazem Logo me ponho a correr.
(Finda-se aqui a função saindo todos a cantar.)