Portuguese poem
Sapo do Cariri
by Sílvio Romero (1851–1914)
No sertão de Cariri Havia um sapo casado, Na seca de oitenta e nove Quase que morre torrado.
Determinou a mudar-se Levando consigo a Gia, Descendo cabeça abaixo Em procura da Bahia.
É certo que vai pejada Dona Gia de Menezes, Que já vai a completar A conta de nove meses.
E deu no pé de uma serra Nos mares de Acaracu, Logo ali a tardezinha Deu na casa do teiú.
Bateu na porta do dito: "Deus vos guarde, meu Senhor, Vasmincê, por caridade, Dá-me um rancho por favor."
— Não, senhor, não pode ser, Pois a casinha é pequena, Não havemos de caber. Ao demais, pelo que vejo, Parece que não vem só, Pelo trem que vem trazendo Também traz a sua avó.
"Não, senhor, a minha avó Há muito que já morreu; Esta que trago aqui É a mulher que Deus me deu. Disto mesmo me arreceio De andar a riba e abaixo, Com medo qu'ela não para Antes que chegue ao riacho".
— Visto isto, meu senhor, Entre vasmincê pra dentro, Recolha-se àquele quarto, Faça lá seu aposento. E precisa-se saber Da senhora D. Gia Se nos promete sossego, E não muita gritaria.
"Sim, senhor, senhor teiú, Também sabemos da solfa, Mas não usaremos dela, Porque a casa não é nossa."
Desce o teiú as escadas Pras camarinhas de baixo; Dão dores em D. Gia, Que pare um sapinho macho.
"Marido, você não sabe, Que por direita razão. Deve o teiú ser padrinho Deste nosso rapagão?"
Bom, muito bom discurso, Minha mulher, D. Gia, Hei de fazer o convite Assim que amanheça o dia."
— Bons dias, Siá D. Gia, Como se foi de dormida? "Eu, bem, amanheci parida De um menino mui perfeito, Que pelo chorar, parece, Ser solfista de preceito."
"Não lhe servindo de incômodo, Nem também de enfade, Quero que vasmincê seja O bom do nosso compade."
— Eu só para o seu serviço Muito gosto me acho; Mas é preciso saber Se o menino é fêmea ou macho.
"É machinho, meu Senhor, E pra cantar minuete Por músicas e solfejos Ir Ele é todo sem defeite."
— A comadre não precisa Dalguma ama de leite, E também dum panicum Onde este menino deite?
"Meu senhor, ama de leite Isto não lhe dê enfade, Que quando faltar o meu, Suprirá o seu compade.'"
— Ob! comadre, e o meu compadre Tem peito que nem mulber? "Batendo nas costas dele, Dá leite como qualquer."
— Vasmincê me dê licença, Que o sol está esquentando, E vou aqui pela estrada Dar um giro passeando.
"Vasmincê, mande e não pede” Responde a gia e o sapo. Deus o livre do cadelo Que o deseja por no papo."
Saiu o teiú por ali Ligeirinbo se arrastando, Escutando com bem medo Alguém que andasse caçando.
Deu logo com um vaqueiro. De muito certa jornada, Que lhe deu com o rastinho Muito fresco da estrada.
Escutou e fez sentido. Atrepou depois num pau, E tocou a sericória Parecendo birimbau.
O cachorro quando ouviu Que o tom era do senhor, Botou-se por ali fora E num instante chegou.
Mestre sapo mais agia, Que estavam cantarolando, Não sabiam do barulho Que o teiú estava arranjando.
Mas o cachorro danado Dá com o sapo cururu, E endireitou-se para ele Julgando que era o teiú.
A gia saiu à frente Dizendo: "seu presumido! Não me mate meu marido, Tenha pena dum sapinho,
Que lhe faltando seu pai Morre à míngua, coitadinho."
"Eu não o mato, senhora, Não é por dó dele ter, É por nojo dele haver, Que um diabo como este Só se levando a cacete", Pois tem a pele tão grossa Que por ela verte azeite."
Assim sucede a quem anda Por casa que não é sua, Mesmo sendo de compadre Anda com os quartos na rua.
O sapo de grande susto Ficou meio adoentado, Não disse nada ao teiú, Mas ficou desconfiado.
"Marido, este seu mal Parece ser perigoso; Precisa tomar purgante De raiz de fedegoso."
"Mulher, lá nos Cariris Entendia alguma cousa? "Marido, nos, Cariris, Em mim tinham sua fé, Depois que curei de olhado O formoso jacaré.
"Faça seu apontamento Em seu juízo perfeito, Pra depois eu não ficar Embaraçada e sem jeito. Mulher, por meu testamento Não lhe bata este papinho, Deixo as solfas pra você A boceta pro sapinho.
"E, marido, o seu enterro? "O meu enterro, mulher, As formigas e urubus O farão como quiser.
Saiu a gia pra fora Caçar remédio pro sapo; encontrando os urubus, Quase caiu no buraco.
"Marido, era verdade O que você me dizia, Perto do buraco estava Reunida a clerezia; O que digo não é peta, Todos de chimarra preta.
Crivada de diamantes, E por uma banda e outra Sessenta e dois estudantes. E aonde há um abade Do tamanho de um peru, Que é o Felix do Pedrão."
"Felix do Pedrão, mulher, É homem muito mofino, Que sem que veja dinheiro, Não pega em corda de sino."
Tendo o sapo melhorado Foi-se embora com a Gia, Com medo doutro barulho Que o teiú trazer podia.
Nisto o teiú aparece; "— Deus vos salve, meu compadre; Cá pela sua casa Houve alguma novidade?
E o meu afilhadozinho Já toca solfa no coro? Vasmincês naquele dia Fizeram praça ao cachorro."
O sapo quando. isto ouviu, Qu 'era uma pabulage, Aqui mesmo foi descendo O surrão da matalutage, Foi levando mãos à riba Puxou pela parnaíba.
"Ah! seu cão! seu pé de gancho." "— Este é o pago que me dás De ter te dado o meu rancho? "Ah! cão! ah! cara de fome! Atira, atira, seguro, Que tu atiras em home."
"Acuda, Siá D. Gia, Não seja tirana, ingrata, Veja bem que estou por baixo, O cão do teiú me mata."
"Marido que mofineza!... Puxe a faca da maneira; Não se esqueça onde ela está Eu a botei n'algibeira."
"Esta mulher D. Gia É mulher muito faceira, Sempre anda se lembrando Da pequena da maneira'
E puxou a mão da faca, Saiu o teiú ferido. A Gia ficou com queixa De o não matar o marido.
Foram tratar de fazer Morada de pedra e cal, Mas sem cuidar de saber Que isto era pra seu mal.
Caiu a casa Como esparrela. Morreram todos De dentro dela. Saiu o sapinho Por um buraquinho.