Portuguese poem
Lyra III
by Tomás Antônio Gonzaga (1744–1810)
Succede, Marilia bella, Á medonha noite o dia: A estação chuvosa e fria, Á quente secca estação. Muda-se a sorte dos tempos; Só a rainha sorte não?
Os troncos, nas Primaveras, Brotão em flores viçosos; Nos Invernos escabrosos Largão as folhas no chão. Muda-se a sorte dos troncos; Só a minha sorte não?
Aos brutos, Marilia, cortão Armadas redes os passos; Rompem depois os seus laços, Fogem da dura prisão. Muda-se a sorte dos brutos; Só a minha sorte não?
Nenhum dos homens conserva Alegre sempre o seu rosto; Depois das penas vem gosto, Depois do gosto afflicção. Muda-se a sorte dos homens; Só a minha sorte não?
Aos altos Deoses movêrão Soberbos Gigantes guerra; No mais tempo o Ceo, e a Terra Lhes tributa adoração. Muda-se a sorte dos Deoses; Só a minha sorte não?
Hade, Marilia, mudar-se Do destino a inclemencia: Tenho por mim a innocencia, Tenho por mim a razão. Muda-se a sorte de tudo; Só a minha sorte não?
O tempo, ó bella, que gasta Os troncos, pedras, e o cobre, O véo rompe, com que encobre Á verdade a vil traição. Muda-se a sorte de tudo; Só a minha sorte não?
Qual eu sou verá o mundo, Mais me dará do que eu tinha, Tornarei a ver-te minha. Que feliz consolação! Não ha de tudo mudar-se, Só a minha sorte não.