Portuguese poem
Lyra IV
by Tomás Antônio Gonzaga (1744–1810)
Já, já me vai, Marilia, branquejando Loiro cabello, que circúla a testa. Este mesmo, que alveja, vai cahindo, E pouco já me resta.
As faces vão perdendo as vivas côres, E vão-se sobre os ossos enrugando, Vai fugindo a viveza dos meus olhos; Tudo se vai mudando.
Se quero levantar-me, as costas vergão; As forças dos meus membros já se gastão, Vou a dar pela casa huns curtos passos, Pesão-me os pés, e arrastão.
Se algum dia me vires desta sorte, Vê que assim me não pôz a mão dos annos: Os trabalhos, Marilia, os sentimentos, Fazem os meus danos.
Mal te vir me dará em poucos dias, A minha mocidade o doce gosto; Verás burnir-se a pelle, o corpo encher-se, Voltar a côr ao rosto.
No calmoso Verão as plantas seccão, Na Primavera, que aos mortaes encanta, Apenas cahe do Ceo o fresco orvalho, Verdeja logo a planta.
A doença deforma a quem padece; Mas logo que a doença fez seu termo, Torna, Marilia, a ser quem era d'antes, O definhado enfermo.
Suppo[~e]-me qual doente, ou qual a planta, No meio da desgraça, que me altera: Eu tambem te supponho qual saude, Ou qual a Primavera.
Se dão esses teus meigos, vivos olhos Aos mesmos Astros luz, e vida ás flores; Que effeitos não farão, em quem por elles Sempre morrêo de amores?