Portuguese poem
Lyra IX
by Tomás Antônio Gonzaga (1744–1810)
A estas horas Eu procurava Os meus Amores; Tinhão-me inveja Os mais Pastores.
A porta abria, Inda esfregando Os olhos bellos, Sem flor, nem fitta Nos seus cabellos:
Ah! que assim mesmo Sem compostura, He mais formosa, Que a estrella d'alva; Que a fresca rosa.
Mal eu a via, Hum ar mais leve, (Que doce effeito!) Já respirava Meu terno peito.
Do cerco apenas Soltava o gado, Eu lhe amimava Aquella ovelha Que mais amava.
Dava-lhe sempre No rio, e fonte, No prado, e selva, Agua mais clara, Mais branda relva.
No cóllo a punha, Então brincando A mim a unia; Mil coizas ternas Aqui dizia.
Marilia vendo Que eu só com ella He que fallava; Ria-se a furto, E disfarçava.
Desta maneira Nos castos peitos, De dia, em dia A nossa chamma Mais se accendia.
Ah! quantas vezes No chão sentado, Eu lhe lavrava As finas rócas, Em que fiava?
Da mesma sorte Que á sua amada, Que está no ninho, Fronteiro canta O passarinho.
Na quente sésta, Della defronte, Eu me entretinha Movendo o ferro Da sanfoninha.
Ella por dar-me De ouvir o gosto, Mais se chegava: Então vaidoso Assim cantava:
Não ha Pastora, Que chegar possa Á minha bella; Nem quem me iguale Tambem na estrella:
Se Amor concede Que eu me recline No branco peito, Eu não invejo De Jove o leito:
Ornão seu peito As sãs virtudes, Que nos namorão; No seu semblante As Graças morão.
Assim vivia: Hoje em suspiros O canto mudo: Assim, Marilia, Se acaba tudo.