Portuguese poem
Lyra V
by Tomás Antônio Gonzaga (1744–1810)
Os mares, minha bella, não se movem; O brando Norte assopra, nem diviso Huma nuvem sequer na Esfera toda, O destro Nauta aqui não he preciso; Eu só conduzo a náo, eu só modéro Do seu governo a roda.
Mas ah! que o Sul carrega, o mar se empolla, Rasga-se a véla, o mastaréo se parte! Qualquer varão prudente aqui já teme Não tenho a necessaria força, e arte. Corra o sabio Piloto, corra, e venha Reger o duro leme.
Como succede á náo no mar, succede Aos homens na ventura, e na desgraça: Basta ao feliz não ter total demencia, Mas quem de venturoso a triste passa, Deve entregar o leme do discurso Nas mãos da sã prudencia.
Todo o Ceo se cubrio, os raios chovem; E esta alma, em tanta pena consternada, Nem sabe aonde possa achar conforto. Ah, não, não tardes, vem, Marilia amada, Toma o leme da náo, marêa o panno, Vai-a salvar no porto.
Mas ouço já de Amor as sabias vozes: Elle me diz que soffra se não morro; E perco então se morro huns doces laços. Não quero já, Marilia, mais soccorro, Oh ditoso soffrer, que lucrar póde A gloria dos teus braços.