Versos Portuguese Tomás Antônio Gonzaga Lyra XXXII

Portuguese poem

Lyra XXXII

by (1744–1810)

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N'uma noite socegado Velhos papeis revolvia, E por ver de que tratavão Hum por hum a todos lia.

Erão copias emendadas De quantos versos melhores Eu compuz na tenra idade A meus diversos amores.

Aqui leio justas queixas Contra a ventura formadas, Leio excessos mal acceitos, Doces promessas quebradas.

Vendo sem razões tamanhas Eu exclamo transportado: Que finezas tão mal feitas! Que tempo tão mal passado!

Junto pois n'hum grande monte Os soltos papeis, e logo, Porque reliquias não fiquem, Os intento pôr no fogo.

Então vejo que o Deos cego Com semblante carregado Assim me falla, e crimina O meu intento acertado.

Queres queimar esses versos? Dize, Pastor attrevido, Essas Lyras não te forão Inspiradas por Cupido?

Achas que de taes amores Não deve existir memoria? Sepultando esses triunfos, Não roubas a minha gloria?

Disse Amor; e mal se calla, Nos seus hombros a mão pondo, Com hum semblante sereno Assim á queixa respondo:

Depois, Amor, de me dares A minha Marilia bella, Devo guardar humas Lyras, Que não são em honra della?

E que importa, Amor, que importa Que a estes papeis destrua; Se he tua esta maõ; que os rasga, Se a chamma, que os queima, he tua?

Apenas Amor me escuta Manda que os lance nas brazas; E ergue a chamma c'o vento, Que formou batendo as azas.