Versos Portuguese Tomás Antônio Gonzaga Lyra XXXII

Portuguese poem

Lyra XXXII

by (1744–1810)

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Se o vasto mar se encapella, E na rócha em flor rebenta, Grossa náo, q' não tem léme, Em vão sustentar-se intenta; Até que naufraga, e corre Á discrição da tormenta.

Quem não tem huma Belleza, Em que ponha o seu cuidado, Se o Ceo se cobre de nuvens, E se assopra o vento irado, Não tem forças que resistão Ao impulso do seu fado.

Nesta sombria masmorra, Aonde, Marilia, vivo, Encosto na mão o rosto, Fico ás vezes pensativo. Ah! que imagens tão funestas Me finge o pezar activo.

Parece que vejo a honra, Marilia, toda enlutada, A face de hum pai rugosa, N'um mar de pranto banhada, Os amigos mascilentos, E a familia consternada.

Quero voltar os meus olhos Para outro diverso lado, Vejo n'uã grande Praça Hum Theatro levantado. Vejo as Cruzes, vejo os Potros, Vejo o Alfanje afiado.

Hum frio suor me cobre, Lação-se os membros, suspiro, Busco allivio ás minhas ancias, Não o descubro, deliro. Já, meu Bem, já me parece, Que nas mãos da morte espiro.

Vem-me então ao pensamento A tua testa nevada, Os teus meigos, vivos olhos, A tua face rosada, Os teus dentes crystallinos, A tua boca engraçada.

Qual, Marilia, a estrella d'alva, Que a negra noite affugenta, Qual o Sol, que a nevoa espalha Apenas a terra aquenta, Ou qual Iris, que o Ceo limpa, Quando se vê na tormenta.

Assim, Marilia, desterro Triste illusão, e demencia; Faz de novo o seu officio, A razão, e a prudencia; E firmo esperanças doces Sobre a candida innocencia.

Restauro as forças perdidas, Sóbe a viva côr ao rosto; Gyra o sangue pela vêa, E bate o pulso composto. Vê, Marilia, o quanto póde Contra os meus males teu rosto.