Versos Portuguese Tomás Antônio Gonzaga Marilia de Dirceo

Portuguese poem

Marilia de Dirceo

by (1744–1810)

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Convidou-me a vêr seu Templo O cego Cupido hum dia; Encheo-se de gosto o peito, Fiz deste Deos hum conceito Como delle não fazia.

Aqui vejo descorados Os ternissimos amantes Entre as cadêas gemerem; Vejo nas piras arderem As entranhas palpitantes.

A quem ama quanto avista, (Diz Cupido) não aterra: Quem quer cingir o loureiro, Tambem vai soffrer primeiro Todo o trabalho da guerra.

Com tudo que te dilates Neste sitio não convenho; Deixa a estancia lastimosa, Vem vêr a Salla formosa, Aonde o meu Solio tenho.

Entro n'outro grande Templo: Que perspectiva tão grata! Tudo quanto nelle vejo Passa além do meu desejo, E o discurso me arrebata.

He de marmore, e de jaspe O soberbo frontespicio: He todo por dentro d'ouro, E a hum tão rico tesouro Inda excede o artificio.

As janellas não se adornão De sedas de finas côres: Em lugar de cortinados Estão prezos, e enlaçados Fastões de mimosas flores.

Em torno da Salla Augusta Ardem dourados brazeiros; Queimão rezinas, que estalão, E postas em fumo exalão Da Panchaya os gratos cheiros.

Ao pé do Throno os seus Genios Alegres hymnos entoão: Danção as Graças formosas; E aqui as horas gostosas Em vêz de correrem, vôão.

Estão sobre o pavimento, Igualmente reclinados Nos collos de seus amores, Os grandes Reis, e Pastores De frescas rosas coroados.

Mal o acôrdo restauro, (Me diz, o Moço risonho:) Como ainda não reparas Em tantas cousas tão raras, De que este Templo componho?

Sabes a historia de Jove? Aqui tens o manso Touro; Tens o Cisne decantado; A Velha em que foi mudado, Com a grossa chuva d'ouro.

Applica, Dirceo, agora Os olhos para esta parte: Aqui tens o verde Louro, Que inda estima o Pastor louro, E a Rede, que enlaça a Marte.

Vês este Arco destramente De branco marfim ornado? Á Casta Deosa servia, E o perdêo quando dormia Do gentil Pastor ao lado.

Vês esta Lyra? com ella Tira Orpheo ao bem querido Dos infernos aonde estava. Vês este Faról? guiava Ao meu nadador de Abydo.

Vês estas duas Espadas Ainda de sangue cheias? A Thysbe, e a Dido matárão; E os fortes pulsos armárão De Pyramo, e mais de Eneas.

Sabes quem vai no Navio, Que nesse mar se levanta? He Theseo. Vês esse Pomo? He de Cydippe, assim como São aquelles de Atalanta.

Vê agora estes retratos, Que destros pinceis fizerão: Ah! que pinturas divinas! Todos são das Heroinas, Que mais victorias me dérão.

Repara nesse semblante, He o semblante de Helena: Lá se avista a Grega Armada, E aqui de Troya abrazada Se mostra a funesta scena.

Vês est'outra formosura? He a bella Deidamía; Lá tem Achilles ao lado, De huma saia disfarçado Como com ella vivia.

Cleópatra he quem se segue: Alli tens lançando a linha Marco Antonio socegado, Ao tempo em que Augusto irado, Com armada mão caminha.

Aqui Hermes se figura: Vê hum Sabio dos maiores, Qual infame delinquente, Ir desterrado sómente Por contar os seus louvores.

Este he de Omphale o retrato: Aqui tens (quem o diria!) Ao grande Hercules sentado Com as mais damas no estrado, Onde em seu obsequio fia.

Anda agora a est'outra parte: Conheces, Dirceo, aquella? Onde váes? (lhe digo:) explica, Que belleza aqui nos fica, Sem fazeres caso della?

Ergo os olhos ponho a vista Na imagem não explicada, Ó quanto he digna de appreço! Mal exclamo assim, conheço Ser a minha doce amada.

O coração pelos olhos Em terno pranto sahia, E no meu peito saltava: Disfarçado Amor, olhava Para mim a furto, e ria.

Depois de passado tempo, A mim se chega, e me aballa; Desperto de tanto assombro: Elle bate no meu hombro, E assim affavel me falla.

Sim, caro Dirceo, he esta A divina formosura, Que te destina Cupido; Aqui tens o laço urdido Da tua immortal ventura.

O Numen, Dirceo, o Numen Que aos trabalhos de hum humano Desta sorte felicita, Não he, como se accredita, Não he hum Numen tyranno.

Olha se a cega Fortuna De tudo quanto se cria, Ou nos mares, ou na terra, Em o seu thesouro encerra Outro bem de mais valia?

Lizas faces côr de rosa, Brancos dentes, olhos bellos, Grossos beiços encarnados, Pescoço, e peitos nevados, Negros e finos cabellos;

Não vale mais, que cingires Co' braço de sangue immundo Na cabeça o verde louro? Do que teres montes d'ouro? Do que dares leis ao mundo?

Ah! ensina, sim ensina Ao vil mortal atrevido, E ao peito que adora terno, Que tem para hum Inferno, Para o outro hum Ceo, Cupido.

Ao resto Amor me convida; Eu chorando a mão lhe beijo: E lhe digo, Amor, perdôa Não seguir-te; pois não vôa A vêr mais o meu dezejo.