Portuguese poem
Lyra XXXI
by Tomás Antônio Gonzaga (1744–1810)
Minha Marilia, Se tens belleza, Da natureza He hum favor. Mas se aos vindouros Teu nome passa, He só por graça Do Deos de amor, Que terno inflamma A mente, o peito Do teu Pastor.
Em vão se virão Perlas mimosas, Jasmins, e rosas No rosto teu. Em vão terias Essas estrellas, E as tranças bellas Que o Ceo te dêo; Se em doce verso Não as cantasse O bom Dirceo.
O voraz tempo Ligeiro corre: Com elle morre A perfeição. Essa, que o Egypto Sábia modera, De Marco impera No coração; Mas já Octavio Não sente a força Do seu grilhão.
Ah! vem, ó bella, E o teu querido Ao Deos Cupido Louvores dar; Pois faz que todos Com igual sorte Do tempo, e morte Possão zombar: Tu por formosa, E elle, Marilia, Por te cantar.
Mas ai! Marilia, Que de hum amante, Por mais que cante, Gloria não vem! Amor se pinta Menino, e cego: No doce emprêgo Do charo bem Não vê defeitos, E augmenta, quantas Bellezas tem.
Nenhum dos Vates, Em teu conceito, Nutrio no peito Nescia paixão? Todas aquellas, Que vês cantadas, Forão dotadas De perfeição? Forão queridas; Porém formosas Talvez que não.
Porém que importa Não valha nada Seres cantada Do teu Dirceo? Tu tens, Marilia, Cantor celeste; O meu Glauceste A voz ergueo; Irá teu nome Aos fins da Terra, E ao mesmo Ceo.
Quando nas azas Do leve vento Ao Firmamento Teu nome for: Mostrando Jove Graça extremosa, Mudando a Esposa De inveja a côr; De todos ha-de, Voltando o rosto, Sorrir-se Amor.
Ah! não se manche Teu brando peito Do vil defeito Da ingratidão: Os versos beija, Gentil Pastora, A penna adora, Respeita a mão, A mão discreta, Que te segura A duração.