Portuguese poem
Æternum Carmen
by Vicente de Carvalho (1866–1924)
«Amanhece... No ceu, lá fóra, é madrugada, A noute se dilue numa poeira dourada.
Em derredor de mim toda a floresta acorda, Sussurra, adeja, esvoaça, agita-se, transborda De alegria ruidoza e de vida triunfante.
As aves, ensaiando o vôo titubeante, Saltam do ninho fôfo ás tremulas ramadas, Espanejam ao sol as azas orvalhadas...
E eu, misera que sou! da sombra em que desvivo, Para mal entrever, remoto e fugitivo, Num cantinho de ceu um vislumbre de aurora, Sonho, dezejo, anceio — á espera que a folhajem Se entreabra num bafejo inconstante de arajem.
Aves que ergueis o vôo errante ceus em fóra, Vós, livres dos grilhões de hastes e de raizes, Que adejais gorjeando, afoutas e felizes; — Da sombra do meu ermo e do chão do meu brejo, Prizioneira e infeliz, aves, eu vos invejo!
Se eu pudesse voar... voar!...
Ai, quem pudéra Ir no rastro do sol seguindo a primavera!
Quem te pudéra ver fiel e duradouro, Tempo alegre e fugaz das madrugadas de ouro! Quando brilhas no ceu, pipilas no meu seio, E’ um sonho meu olhar, minha vida é um gorjeio...
Passas, e chega o inverno... Amortece o meu vôo. Veem as noutes sem fim... O sol que eu abençôo, Palido e triste, róla atraz dos montes... Déce Funebremente a noute. O ceu dezaparece
Na sombra. No silencio e na treva, amedronta O uivo dos matagais... Apavorada, tonta, Desmaio sobre o ninho; e a sós, triste abandono! Sonho sombras de abutre a adejar-me no sono...
O’ manhãs côr de roza e de ouro! quem pudera Ir no rastro do sol seguindo a primavera!...
Nesta prizão da minha órbita estreita, passo Anos, seculos, toda a eternidade!... O espaço — Rede de fios de ouro em torno se me enrosca Como teia de aranha encarcerando a mosca. A minha vida é bem a vida condenada De um cativo infeliz numa prizão dourada. Pelo tempo sem fim, cançado e solitario, Refaço eternamente o mesmo itenario... Se eu pudesse vogar no espaço livremente Ir boiando, boiando á toa, na corrente
Branca da Via Lactea!... Ir sempre adiante, adiante; E emfim, quando o cansaço acaso me avassale, Achar pelo infinito a fóra, ermo e distante, Num abismo de sombra o repouzo de um vale...
E’ bem vão o teu sonho, alma que tanto sonhas! Que importa? Sonha sempre! Ha miragens rizonhas No dezerto da vida. Enganam-te; que importa? Segue-as, vai, arquejante, ezausta, semi-morta, Nunca as alcançarás. Embora! Agonizando, Corre atraz delas! Sonha, e sucumbe sonhando!
......Ah, se eu pudesse erguer-me Sobre a poeira do chão e a mizeria do verme, Fujir de mim que sou verme e poeira...
Vida, Dezerto, árido chão de areia resequida, A alma sedenta em vão te pede um pouco d’agua...
O sonho, o proprio sonho, é uma fonte de magua!