Versos Portuguese Visconde de Almeida Garrett João Batista da Silva Leitão de Almeida Garrett Cuidado E Desejo

Portuguese poem

Cuidado E Desejo

by

Listen in the reader

Ao longo de uma ribeira Que vai pelo pé da serra, Aonde me a mi fez a guerra Muito tempo o grande amor, Me levou a minha dor: Ja era tarde do dia, E a agua d’ella corria Por antre um alto arvoredo, Onde ás vezes ia quedo O rio, e ás vezes não.

Entrada era do verão, Quando começam as aves Com seus cantares suaves Fazer tudo gracioso. Ao ruido saudoso Das aguas cantavam ellas: Todalas minhas querellas Se me puseram deante; Alli morrer quizera ante Que ver por onde passei. Mas eu que digo—passei! Antes inda heide passar, Em quanto hi houver pezar, Que sempre o hi hade haver.

As aguas, que de correr Não cessavam um momento, Me trouxera’ ao pensamento Que assim eram minhas mágoas, D’onde sempre correm aguas Por estes olhos mesquinhos, Que têem abertos caminhos Pelo meio do meu rosto. E ja não tenho outro gôsto Na grande desdita minha. O que eu cuidava que tinha Foi-se-me assim não sei como, D’onde eu certa crença tómo Que, para me leixar, veio.

Mas, tendo-me assi alheio De mi o que alli cuidava, Da banda d’onde agua estava Vi um homem todo cam, Que lhe dava pelo cham A barba e o cabello. Ficando eu pasmado d’ello, Olhando elle para mi, Fallou-me e disse-me assi: —Tambem vai ésta agua ao Tejo.’

N’isto olhei, vi meu Desejo Estar de trás triste e só, Todo cuberto de dó, Chorando sem dizer nada, A cara em sangue lavada, Na bôcca posta ũa mão, Como que a grande paixão, Sua falla lhe tolhia.

E o velho que tudo via, Vendo-me tambem chorar Começou a assi fallar: —‘Eu mesmo são teu Cuidado Que n’outra terra criado, N’esta primeiro nasci. E ess’outro que está aqui É o teu Desejo triste; Que má hora o tu viste Pois nunca te esquecerá! A terra e mar passará Traspassando a mágoa a ti’

Quando lhe eu aquisto ouvi, Soltei suspiros ao chôro; Alli clarante o fôro Meus olhos tristes pagaram De um bem só que elles olharam, Que outro nunca mais tiveram. Nem o tive, nem m’o deram, Nem o esperei somente: De só ver fui tam contente, Que pera mais esperar Nunca me deram logar.

E n’aquisto, triste estando Com os olhos tristes olhando D’aquellas bandas d’alêm, Olhei e não vi ninguem. Dei então a caminhar Rio abaixo, até chegar A cêrca de Montemór.

Com meus males de redor, Da banda do meio-dia, Alli minha Phantasia, D’antre uns medrosos penedos, Onde aves que fazem medos De noite os dias vão ter, Me sahiu a receber Com ũa mulher pelo braço, Que, ao parecer de cansaço Não podia ter-se em si, Dizendo:—‘Vês, triste, aqui A triste Lembrança tua.’ Minha vista então na sua Pus, d’ella todo me enchi: A prima coisa que vi E a derradeira tambem, Que no mundo vão e vem!

Seus olhos verdes rasgados De lagrymas carregados, Logo em vendo-os, pareciam Que de lagrymas enchiam Contino as suas faces, Que eram, gran’ tempo, paces Antre mi e meus cuidados.

Loiros cabellos ondados Um negro manto cubria: Na tristeza parecia Que lhe convinha morrer. Os seus olhos de me ver, Como furtados, tirou, Depois em cheio me olhou. Seus alvos peitos rasgando Em voz alta se aqueixando, Disse assi mui só sentida: —‘Pois que mor dor ha na vida Para que houve ahi morrer?’ Callou-se sem mais dizer. Eu de mi gemidos dando, Fui-me para ella chorando Para a haver de consolar...

N’isto pôs-se o sol ao mar, E feze-se noite escura, E disse mal á ventura E á vida, que não morri... E muito longe d’alli, Ouvi de um alto oiteiro Chamar:—‘Bernardim-Ribeiro!’ E dizer:—‘olha onde estás!’ Olhei de ante e de traz E vi tudo escuridão, Cerrei meus olhos então, E nunca mais os abri, Que depois que a perdi Nunca vi tam grande bem. Porêm inda mal, porêm!