Portuguese poem
‘Virtude Sem Prazer Não É Virtude’
by Visconde de Almeida Garrett João Batista da Silva Leitão de Almeida Garrett
Deixa, eu t’o rogo, deixa, Annalia minha, Duros preceitos de moral sombria; Fingiu-os a traidora hypocrisia Que detrás d’elles, a zombar, se aninha.
Leis de tartufos, invenção danninha Que protege a impostura e o vício cria, O egoismo as dictou, funesta harpia Que as horas do gosar nos amesquinha.
A mão da natureza, a mão sublime O gran’sêllo forjou na eterna incude Com que o signal de falsas lhes imprime.
O coração m’o diz, que não illude: Crime sem dor, Annalia, não é crime, ‘Virtude sem prazer não é virtude.’
Coimbra--1818.
IX.
A FLOR SÊCCA.
Vai, flor gentil, vai prenda suspirada, Doce mimo d’amor terno e fagueiro, Vai, que elle mesmo grato e prazenteiro Elle te hade levar á minha amada.
Cumpre a que ella te impoz, que é lei sagrada: Se mudada te achar, sem côr, sem cheiro, Se o viço, a gala do verdor primeiro Em tuas pallidas folhas vir crestada,
Diz-lhe que mais que a ti, mais me queimára O intenso ardor d’aquella saudade Que a ambos n’este estado nos deixára.
Oh! se um benigno influxo de piedade De seus formosos olhos te orvalhára... Qual de nós ambos reviver não hade?
Porto--1819.
X.
A CERTA TRAGEDIA.
Mil parabens á musa portugueza Que do padre José fulgiu na penna! Cai a velha Melpomene da scena, Foi-se a tragedia grega e a franceza.
Sóphocles pôz-se a dar voltas d’Andreza, Euripedes está de quarentena, Corneille indoudeceu de inveja e pena, Crebillon foi queimar o Atreu e a mesa;
Racine professou nos Mariannos, Voltaire está a leites de jumenta, Alfieri vai fazer sonetos de annos.
Victorioso o padre a Branca ostenta: Só por vencer lhe restam dois maganos... Mas temiveis rivaes--Paiva e Pimenta.
Coimbra--1819.
XI.
MARIA E CAROLINA.
Que hade brindar á amavel Carolina Pelos seus annos a gentil Maria? Tam franca de seus dons, ao dar-lhe o dia, Não deixou que outorgar-lhe a mão divina.
Qual de ambas póde haver offerta dina De quantas liberal natura cria? Que gera o loiro sol ou que allumia Que encha os desejos d’alma peregrina?
A amigas taes, ao par que me innamora Ja não tem que lhes dar a humanidade, Por mais que seus thesoiros aprimora.
Amor, divino amor, doce amizade, Numes do coração, valei-me agora: Dae-lhes, pois deuses sois, a eternidade.
Porto--1819.
XII.
SAUDADE.
Seculos são, na vida que infastia, Estes dias de exilio amargurados; Um por um, mágoa a mágoa, vão contados Em lenta e cruellissima agonia.
Oh! roubemos-lhe aomenos este dia, Ao padecer que todos trás roubados; Sejam pela amizade consagrados Ao casto amor instantes de alegria.
Tem prazeres tambem a desventura: A propria carrancuda adversidade Surri co’a esp’rança que lhe luz futura.
Vem, amigo, no seio da amizade Festeja a espôsa, sonha co’a ventura Que um dia hade mattar tanta saudade.
Londres--1828.
ULTIMOS VERSOS.
FOLHAS CAHIDAS.
DOS EDITORES.
Cumpre-se a promessa feita no primeiro volume d’esta collecção reunindo aqui, em segunda edição muito augmentada e correcta, as FOLHAS CAHIDAS.
Apezar de estarem no prelo desde 1851, o auctor tinha descuidado na primeira edição o seu habitual escrupulo de rever e corrigir; e não teve paciencia para as augmentar com muitas peças que agora vão, e que então não estavam postas a limpo. Trabalhos mais serios o distrahiram durante os dois annos que levaram a imprimir tam poucas paginas.
Julgou-se agora melhor dividir em dois livros o que, assim augmentado, ficaria demaziado para um só.
Maio--1853.
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