Portuguese poem
Xxiii
by Visconde de Almeida Garrett João Batista da Silva Leitão de Almeida Garrett
BELLEZA.
Vem do amor a Belleza, Como a luz vem da chamma. É lei da natureza: Queres ser bella?--ama. Fórmas de incantar, Na tella o pincel As póde pintar; No bronze o buril As sabe gravar; E estátua gentil Fazer o cinzel Da pedra mais dura... Mas Belleza é isso?--Não; só formosura.
Surrindo entre dores Ao filho que adora Inda antes de o ver, --Qual surri a aurora Chorando nas flores Que estão por nascer-- A mãe é a mais bella das obras de Deus, Se ella ama!--O mais puro do fogo dos ceus Lhe ateia essa chamma de luz crystallina:
É a luz divina Que nunca mudou, É luz... é a Belleza Em toda a pureza Que Deus a creou.
XXIV.
ANJO ES.
Anjo es tu, que esse podêr Jamais o teve mulher, Jamais o hade ter em mim. Anjo es, que me domina Teu ser o meu ser sem fim; Minha razão insolente Ao teu capricho se inclina, E minha alma forte, ardente, Que nenhum jugo respeita, Covardemente sujeita Anda humilde a teu podêr. Anjo es tu, não es mulher.
Anjo es. Mas que anjo es tu? Em tua frente annuviada Não vejo a c’roa nevada Das alvas rosas do ceo. Em teu seio ardente e nu Não vejo ondear o veo Com que o soffrego pudor Vela os mysterios d’amor. Teus olhos têem negra a côr, Côr de noite sem estrêlla; A chamma é vivaz e é bella, Mas luz não tem.--Que anjo es tu? Em nome de quem vieste? Paz ou guerra me trouxeste De Jehovah ou Belsebú?
Não respondes--e em teus braços Com phreneticos abraços Me tens apertado, estreito!... Isto que me cai no peito Que foi?... Lagryma?--Escaldou-me... Queima, abraza, ulcéra... Dou-me, Dou-me a ti, anjo malditto, Que este ardor que me devora É ja fogo de precito, Fogo eterno, que em má hora Trouxeste de lá... De donde? Em que mysterios se esconde Teu fatal, estranho ser! Anjo es tu ou es mulher?
XXV.
VIBORA.
Como a vibora gerado, No coração se formou Este amor amaldiçoado Que á nascença o espedaçou.
Para elle nascer morri; E em meu cadaver nutrido, Foi a vida que eu perdi A vida que tem vivido.
FOLHAS CAHIDAS.
LIVRO SEGUNDO.
I.
BARCA BELLA.
Pescador da barca bella, Onde vas pescar com ella, Que é tam bella, Oh pescador?
Não ves que a última estrêlla No ceo nublado se vela? Colhe a vela, Oh pescador!
Deita o lanço com cautella, Que a sereia canta bella... Mas cautella, Oh pescador!
Não se inrede a rede n’ella, Que perdido é remo e vela Só de vê-la, Oh pescador.
Pescador da barca bella, Inda é tempo, foge d’ella, Foge d’ella Oh pescador!
II.
A COROA.
Bem sei que é toda de flores Essa coroa d’amores Que na frente vais cingir. Mas é coroa--é reinado; E a pôsto mais arriscado Não se póde hoje subir.
N’esses reinos populosos Os vassallos revoltosos Tarde ou cedo dão a lei. Quem hade conter, domá-los, Se são tantos os vassallos E um só o pobre do rei?
Não vejo, rainha bella, Para fugir essa estrella Que os reis persegue sem dó, Mais que um meio--fallo serio: É pôr limites ao imperio E ter um vassallo só.
III.
SINA.
Por todas quantas estrêllas Tem o ceo que possam mais, Pelas flores virginaes De que se c’roam donzellas, Pelas lagrymas singellas Que o primeiro amor derrama, Por aquella etherea chamma Que a mão de Deus accendeu E que na terra allumia Quanto ha na terra do ceu! Por tudo quanto eu queria Quando eu sabia querer, E por tudo quanto eu cria Quando me era dado crer! Bem fadada seja a vida Que por éstas folhas brancas Sua historia hade escrever! Que as dores lhe venham mancas E com azas o prazer!
Ésta sina que lhe dou, Bruxa não n’a adivinhou, Nem duende m’a insinou: Li-a eu por meu condão Em seus olhos innocentes, Transparentes--transparentes Até dentro ao coração.
NOTAS DE RODAPÉ:
As folhas do album em que se escreveram estes versos.
IV.
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