Versos Portuguese Abílio Manuel Guerra Junqueiro A Moleirinha

Portuguese poem

A Moleirinha

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Pela estrada plana, toc, toc, toc, Guia o jumentinho uma velhinha errante. Como vão ligeiros, ambos a reboque, Antes que anoiteça, toc, toc, toc, A velhinha atraz, o jumentito adiante!...

Toc, toc, a velha vae para o moinho, Tem oitenta anos, bem bonito rol!... E comtudo alegre como um passarinho, Toc, toc, e fresca como o branco linho, De manhã nas relvas a córar ao sol.

Vae sem cabeçada, em liberdade franca, O gerico russo d'uma linda côr; Nunca foi ferrado, nunca usou retranca, Tange-o, toc, toc, a moleirinha branca Com o galho verde d'uma giesta em flor.

Vendo esta velhita, encarquilhada e benta, Toc, toc, toc, que recordação! Minha avó ceguinha se me representa... Tinha eu seis anos, tinha ella oitenta, Quem me fez o berço fez-lhe o seu caixão!...

Toc, toc, toc, lindo burriquito, Para as minhas filhas quem m'o dera a mim! Nada mais gracioso, nada mais bonito! Quando a Virgem pura foi para o Egipto, Com certeza ia n'um burrico assim.

Toc, toc, é tarde, moleirinha santa! Nascem as estrellas, vivas, em cardume... Toc, toc, toc, e quando o galo canta, Logo a moleirinha, toc, se levanta, P'ra vestir os netos, p'ra acender o lume...

Toc, toc, toc, como se espaneja, Lindo o jumentinho pela estrada chan! Tão ingenuo e humilde, dá-me, salvo seja, Dá-me até vontade de o levar á egreja, Baptisar-lhe a alma p'ra a fazer cristan!

Toc, toc, toc, e a moleirinha antiga, Toda, toda branca, vae n'uma frescata... Foi enfarinhada, sorridente amiga, Pela mó da azenha com farinha triga, Pelos anjos loiros com luar de prata!...

Toc, toc, como o burriquito avança! Que prazer d'outrora para os olhos meus! Minha avó contou-me quando fui creança, Que era assim tal qual a jumentinha mansa Que adorou nas palhas o menino Deos...

Toc, toc, é noite... ouvem-se ao longe os sinos, Moleirinha branca, branca de luar!... Toc, toc, e os astros abrem diamantinos, Como estremunhados cherubins divinos, Os olhitos meigos para a ver passar...

Toc, toc, e vendo sideral tesoiro, Entre os milhões d'astros o luar sem veo, O burrico pensa: Quanto milho loiro! Quem será que moe estas farinhas d'oiro Com a mó de jaspe que anda alem no ceo!...

Novembro de 1888.