Versos Portuguese Abílio Manuel Guerra Junqueiro A Caridade E A Justiça

Portuguese poem

A Caridade E A Justiça

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No topo do calvario erguia-se uma cruz, E pregado sobre ella o corpo do Jesus, Noite sinistra e má. Nuvens esverdeadas Corriam pelo ar como grandes manadas De bufalos. A lua ensanguentada e fria, Triste como um soluço immenso de Maria, Lançava sobre a paz das coizas naturaes A merencoria luz feita de brancos ais. As arvores que outr'ora em dias de calor Abrigaram Jesus, cheias de magua e dôr, Sonhavam, na mudez herculea dos heroes. Deixaram de cantar todos os rouxinoes, Um silencio pesado amortalhava o mundo. Unicamente ao longe o velho mar profundo Descantava chorando os psalmos da agonia. Jesus, quasi a expirar, cheio de dôr, sorria. Os abutres crueis pairavam lentamente A farejar-lhe o corpo; ás vezes de repente Uma nuvem toldava a face do luar, E um clarão de gangrena, estranho, singular, Lançava sob a cruz uns tons esverdeados. Crucitavam ao longe os corvos esfaimados; Mas passado um instante a lua branca e pura Irrompia outra vez da grande nevoa escura, E inundavam-se então as chagas de Jesus Nas pulverisações balsamicas da luz.

No momento em que havia a grande escuridão, Christo sentiu alguem aproximar-se, e então Olhou e viu surgir no horror das trevas mudas O cobarde perfil sacrilego de Judas. O traidor, contemplando o olhar do Nazareno, Tão cheio de desdem, tão nobre, tão sereno, Convulso de terror fugiu... Mas nesse instante Surgiu-lhe frente a frente um vulto de gigante, Que bradou:

--É chegado emfim o teu castigo O traidor teve medo e balbuciou:

--Amigo, Que pretendes de mim? dize, por quem esperas? Quem és tu?--

--«O Remorso, um caçador de féras, Disse o gigante. Eu ando ha mais de seis mil annos A caçar pelo mundo as almas dos tiranos, Do traidor, do ladrão, do vil, do scelerado; E depois de as prender tenho-as encarcerado Na enormissima jaula atroz da expiação. E quando eu entro ali na immensa confusão De tigres, de leões, d'abutres, de chacaes, De rugidos febris e de gritos bestiaes, Fica tudo a tremer, quieto de horror e espanto. Caim baixa a pupilla e vai deitar-se a um canto. E quando em summa algum dos monstros quer luctar Azorrago-o co'a luz febril do meu olhar, Dando-lhe um pontapé, como n'um cão mendigo. Já sabes quem eu sou, Judas; anda comigo!»

Como um preso que quer comprar um carcereiro, Judas tirou do manto a bolça do dinheiro, Dizendo-lhe:

--Aqui tens, e deixa-me partir...

O gigante fitou-o e começou a rir.

Houve um grande silencio. O infame Iskariote, Como um negro que vê a ponta d'um chicote, Tremia. Finalmente o vulto respondeu:

«Judas, podes guardar esse dinheiro; é teu. O oiro da traição pertence-lhe ao traidor, Como o riso á innocencia e como o aroma á flôr. Esse oiro é para ti o eterno pesadello. Oh! guarda-o, guarda-o bem, que eu quero derretel-o, E lançar-t'o depois caustico, vivo, ardente, Lançar-t'o gota a gota, inexoravelmente Em cima da consciencia, a pudrida, a execravel! Com elle hei de fundir a algema inquebrantavel, A grilheta que a tua esqualida memoria Trará, arrastará pelas galés da Historia, Durante a eternidade illimitada e calma. Essa bolsa que ahi tens é o cancro da tua alma: Já se agarrou a ti, ligou-se ao criminoso, Como a lepra nojenta ao peito do leproso, Como o iman ao ferro e o verme á podridão. Não poderás jámais largal-a da tua mão! És traidor, assassino, hypocrita, perjuro; A tua alma lançada em cima d'um monturo Faria nodoa. És tudo o que ha de mais vil, Desde o ventre do sapo á baba do reptil. Sahe da existencia! dize á sombra que te acoite. Monstro, procura a paz! verme, procura a noite! Que o sol não veja mais um unico momento O teu olhar obliquo e o teu perfil nojento. Esse crime, bandido, é um crime que profana, Todas as grandes leis da vida universal. Esconde-te na morte, assim como um chacal No seu covil. Adeus, causas-me nojo e asco. Deixo dentro de ti, Judas, o teu carrasco! És livre; adeus. Já brilha o astro matutino, E eu, caçador feroz, cumprindo o meu destino, Continuarei caçando os javalis nos matos.»

E dito isto partiu a procurar Pilatos.

Vinha rompendo ao longe a fresca madrugada. Judas, ficando só, meteu-se pela estrada, Caminhando ligeiro, impavido, terrivel, Como um homem que leva um fim imprescriptivel Uma ideia qualquer, heroica e sobranceira; De repente estacou. Havia uma figueira Projectando na estrada a larga sombra escura; Judas, desenrolando a corda da cintura, Subiu acima, atou-a a um ramo vigoroso, Dando um laço á garganta. O seu olhar odioso Tinha n'esse momento um brilho diamantino, Recto como um juiz, forte como um destino.

N'isto echoou atravez do negro céo profundo A voz celestial de Jesus moribundo, Que lhe disse:

--«Traidor, concedo-te o perdão. Além de meu carrasco és inda o meu irmão. Pregaste-me na cruz; é o mesmo, fica em paz. Eu costumo esquecer o mal que alguem me faz. Eu tenho até prazer, bem vês, no sacrificio. Não te cause remorso o meu atroz suplicio, Estes golpes crueis, estas horriveis dores. As chagas para mim são outras tantas flôres!»

Judas fitou ao longe os cerros do calvario, E erguendo-se viril, soberbo, extraordinario, Exclamou:

--«Não acceito a tua compaixão. A Justiça dos bons consiste no perdão. Un justo não perdôa. A justiça é implacavel. A minha acção é infame, hedionda, miseravel; Preguei-te nessa cruz, vendi-te aos Farizeus. Pois bem, sendo eu um monstro e sendo tu um Deus, Vais vêr como esse monstro, ó pobre Christo nu, É maior do que Deus, mais justo do que tu: Á tua caridade humanitaria e doce, Eu prefiro o dever terrivel!»

E enforcou-se.