Portuguese poem
A Arvore Do Mal
by Abílio Manuel Guerra Junqueiro
Por debaixo do azul sereno, entre a fragancia Dos mirtos, dos rosaes, Viviam n'uma doce e n'uma eterna infancia Nossos primeiros paes.
Seus corpos juvenis, mais alvos do que a lua, Mais puros que os diamantes, Conservavam ainda a virgindade nua Das coisas ignorantes.
Poz Deus n'esse jardim com sua mão astuta Ao lado da innocencia A Arvore do Mal que produzia a fructa Venenosa da sciencia.
E, apezar de conter venenos homicidas E o germen do pecado, Era Deus quem comia á noite, ás escondidas, Esse fructo vedado.
Por isso Jehovah tinha sciencia infinda, Tinha um poder secreto, E Adão que não provara os fructos era ainda Um anjo analfabeto.
Eva colheu um dia o bello fructo impuro, O fructo da Rasão. N'esse instante sublime Eva tinha o Futuro Na palma da sua mão!
O homem, abandonado a submissão covarde, Viu o fructo e comeu. Esse fructo é a luz que a Jupiter mais tarde Roubará Prometheu.
E ao vêr igual a si a estatua que creara, O homem reprobo e nu, Jehovah exclamou: «Maldita seja a seara cuja semente és tu!»
Veio depois a Egreja e repetiu aos crentes De toda a humanidade: «Maldito seja sempre o que enterrar os dentes Nos fructos da Verdade!»
A Egreja permittia esse vedado pomo Sòmente aos sacerdotes. Da arvore do mal fugia o mundo, como Os lobos dos archotes.
Se o sabio que buscava o oiro nas retortas Ia como um ladrão Roubar timidamente, á noite, ás horas mortas Algum fructo do chão,
Tiravam-lhe da boca esse fructo damninho D'uma maneira suave: Atando-lhe á garganta uma corda de linho Suspensa d'uma trave.
Um dia um visionario, alma vertiginosa, Espirito immortal, Foi deitar-se, que horror! á sombra temerosa Da Arvore do Mal.
A Egreja ao vêr aquella intrepida heresia Lança-lhe excomunhões; Tomba por terra um fructo... e Newton descobria A lei das atracções!
Sacudi, sacudi, a arvore maldita, Que os astros tombarão, Como se sacudisse a abobada infinita Deus com a propria mão!
E quando o mundo inteiro emfim houver comido Até á saciedade O fructo que lhe estava ha tanto prohibido, O fructo da Verdade,
Homens, dizei então a Jehovah:--«Tirano, Vai-te embora d'aqui! Construimos de novo o paraiso humano; Fizemol-o sem ti.
«Expulsaste do Olimpo a humanidade outr'ora, Ó despota feroz; Pois bem, o Olimpo é nosso, e Jehovah, agora Expulsamos-te nós!
A SEMANA SANTA.