Portuguese poem
A Hydra
by Abílio Manuel Guerra Junqueiro
(Vendo passar seminaristas)
Olhae, vede-os passar em legiões escuras, Intonsos, apezar de todas as tonsuras, Com um ar imbecil, caliginoso, estranho, Marcados a tesoira assim como um rebanho, E envoltos em crueis balandraus de entremez, --As lobas, sob as quaes ha lobos muita vez!... Ó galuchos da Fé, recrutas do Divino, Que um chocalho de bronze hiperbolico--um sino-- Faz erguer, faz dormir, faz deitar, faz andar, Eu não sinto por vós, marionetes do altar, Nem odio nem rancor. Sois victimas. Loyola Dobra-vos a cerviz com a canga da estola, E jungindo-vos, bois nocturnos, ao arado, Rasga comvosco o negro e funebre vallado Aonde o vosso Deus semeia para a infancia A flôr da estupidez e o trigo da ignorancia. A Egreja, a cortezã sensual de ventre obeso, Hontem mulher de Christo e hoje mulher de Creso, Para a rapina odiosa e vil de que se nutre Mochos, deu-vos a calva ortodoxa do abutre! Matilha de Leão XIII a vossa preza é o mundo, Tartufo, bode obsceno e theologo profundo, Ensina-vos, conforme o ritual mais perfeito, A cruzar, como S. Francisco, as mãos no peito, Sob a sotaina arqueando a gravidez das panças, A impor jejuns, benzer caixões salgar creanças, A grunhir, a ladrar sermões, missas cantadas, E a escripturar o céo por partidas dobradas. Não vos odeio não, palidos salafrarios; Vós sois unicamente os comparsas mortuarios Do papa, esse Barnum que assombra a multidão, Com o Espirito Santo a vir comer-lhe a mão Satanaz a frigir (sarrabulhada tragica!) Heresiarchas de estopa em caldeirão de magica, E Jehovah, um urso estupido e cruel A lamber-lhe a sandalia, a babojar-lhe o anel, E a ameaçar furibundo este mundo precito A rufos de trovões no tambor do infinito. A Egreja é uma serpente escura, bicho immundo, Gigantesco reptil que dá a volta ao mundo, E em cujas espiraes ebrias de raiva insana Um Lacconte immortal--a consciencia humana; Ha seculo se estorce em convulsão atroz. Os ellos d'esse monstro implacavel sois vós, Sacristas. A cabeça é o papa. Ora as serpentes Tem a força na cauda e o veneno nos dentes.