Portuguese poem
A Barca De S. Pedro
by Abílio Manuel Guerra Junqueiro
Na barca de S. Pedro ex-santo, hoje banqueiro, São tantos os caixões com bulas da cruzada, E tanto o oiro em barra, as joias, o dinheiro, O navio é tão velho e a carga é tão pesada;
Os anneis, os setins, as purpuras, as rendas, As mitras d'oiro fino, os bentos, as imagens, As pratas, os cristaes, os vinhos, as of'rendas, Os meninos do côro, os famulos, os pagens;
O macisso tropel de conegos vermelhos, De sacristas, bedeis, archeiros, missionarios, E o damasco, o velludo, os bronzes, os espelhos, o silabus, a curia, as forcas, os rosarios;
As pipas e os toneis com aguas milagrosas, Que ainda causam hoje o mais profundo assombro; Dos velhos cardeaes as cortezãs formosas, E o cura Santa Cruz de bacamarte ao hombro;
Esta orgia pagã, esta riqueza immensa Atulham de tal forma a barca ultramontana, É tão desenfreado o vento da descrença, E o mar é tão revolto, a carga é tão mundana;
Que a barca do senhor, outr'ora dirigida Por doze galileus descalços, quasi nus, Ella que atravessava o grande mar da vida Tendo só por farol os olhos de Jesus;
A barca que atravez do horror da tempestade, Arvorando no mastro o pavilhão da Esp'rança, Levava os corações de toda a cristandade Ao grande porto ideal da Bemaventurança;
Hoje ao peso cruel d'este deboche hediondo Essa barca da Egreja, esse colosso antigo Sossobrará, o Deus, com pavoroso estrondo, Indo dormir ao pé dos galeões de Vigo.