Portuguese poem
A Caminho
by Abílio Manuel Guerra Junqueiro
(Abril, ao raiar d'alva. Por uma encosta de sementeiras, pastos, olivedos e amendoaes em flor vae um loiro peregrino adolescente, d'olhos ingenuos e extasiados no alvor da estrella da manhã.)
Um Lavrador
(de noventa anos, em mangas de camísa a lavrar uma terra)
Ó Senhor tão novo, d'olhos côr de esp'rança, Ides de caminho para algum logar?
O Peregrino
Vou dar volta ao mundo...
O Lavrador
Sem arnez ou lança?! Ó Senhor tão novo, d'olhos côr de esp'rança, Penas e miserias é o que ireis achar!...
Uma Velhinha
(mais adiante)
Ó Senhor tão novo, d'olhos inocentes, Ides com cuidados para um tal andar!...
O Peregrino
Vou a prender monstros, combater serpentes...
A Velhinha
Ó Senhor tão novo, d'olhos inocentes, Os dragões ferozes vam-no espostejar!...
Uma Joven Camponeza
(mais adiante)
Ó Senhor tão novo, d'olhos encantados, Ides pela fresca para algum pomar?
O Peregrino
Vou-me a ler Destinos, descobrir os Fados...
A Camponeza
Ó Senhor tão novo, d'olhos encantados, Feiticeiros negros vam-no enfeitiçar!...
Uma Pastorinha
(mais adiante)
Ó Senhor tão novo, d'olhos tão brilhantes, Vossos olhos disem que ides p'ra casar...
O Peregrino
Vou fazer tesoiros, fabricar diamantes...
A Pastorinha
Ó Senhor tão novo, d'olhos tão brilhantes, Ha ladrões nos bosques, vam-no assassinar!...
Um Mendigo
(mais adiante)
Ó Senhor tão novo, d'olhos côr de chama, Vossos olhos ardem como a luz solar!...
O Peregrino
Vou descobrir mundos, quero gloria e fama!...
O Mendigo
Ó Senhor tão novo, d'olhos côr de chama, Sobe o pó mais alto que os trovões do mar!...
A Estrella D'Alva
Ó creança, d'olhos côr da flor dos linhos, Por infernos deixas tua paz, teu lar!...
O Peregrino
(desaparecendo ao longe)
Florirei as pedras pelos maus caminhos! Levo a luz dos astros e as canções dos ninhos A sorrir nos beijos e a tremer no olhar!...