Portuguese poem
Ao Snr. Augusto Frederico Colin
by Adélia Josefina de Castro Fonseca (1827–1920)
O tôsco producto de mente acanhada Quizeste 'n um canto sublime exaltar; Ao som desacorde de lyra tão rude Harmonico accento quizeste chamar.
Teu genio inspirado, que ao céu se remonta, Que, estrella formosa, no espaço já brilha, Benevolo honrando das musas a filha Lhe anima o talento, que apenas desponta.
Um hymno lhe déste de tanta poesia, Que o Vate d'Ignez, si ao mundo tornasse, Ouvindo-te as notas tão meigas, tão dòces, Talvez qu'esse hymno mimoso invejasse.
Teus louvores agradeço ; Mas conheço Que os não posso merecer; Minha musa tão mesquinha, —Coitadinha!— Apenas sabe gemer.
Mas inda que gema afflicta, Não imita Da rôla o terno queixume, Quando lhe roubam do ninho O filhinho, Que 'n elle abrigava inplume.
Não tem do cysne a voz pura, Na tristura Do derradeiro cantar;
Modulando, ao som das aguas, Suas maguas, Antes d'a vida findar.
A voz da misera louca É tão rouca, Que agradar não póde a alguem; Só tu d'ella dó tiveste, E lhe déste Canto que afinal-a vem.
Minha pobre, inculta musa, De confusa, Nem te sabe responder; Teus louvores agradece; Mas conhece Que os não póde merecer.
Si eu tivera um ingenho inspirado, Um ingenho que ao teu igualasse ; Si uma lyra eu tivera divina, Que tão bem, como tu, dedilhasse ;
Oh! da patria o amor, que admiras, Qual o sinto no meu coração, 'Nessa lyra cantar altaneira Fôra o meu mais honroso brazão.
Sim; que a terra, que adóro extremosa, A nenhuma minh'alma compara; E a ventura de amal-a, de vel-a, Pelo throno melhor não trocára.
De — su'alma no livro — o poeta, Retratando da patria a lindeza, Diz — ciumes soffrer, si imagina Outra terra, que a vença em belleza.
Eu, porem, que na minha contemplo Primavera perenne a sorrir, Não concebo que possa no mundo Um paiz tão formoso existir.
Quando vejo esta terra, que eu amo, Por estranha nação ultrajada;
Quando, ingratos, alguns de seus filhos Não se importam de vel-a abysmada;
De profunda tristeza opprimida, Chóro o mal do meu bello paiz, E só vivo ditosa e me alegro, Quando altivo ergue a fronte feliz.
Patria! Patria gentil, feiticeira! Terra santa, d'est'alma querida! Quanto não estimara ser homem Para inteira te dar minha vida!
Linda terra do meu berço, Quanto me viras folgar, Si a trôco de minha vida Te fizesse prosperar!
Embora invejoso estranho Te attribua imperfeições; Amára, quando os tivesses, Esses teus mesmos senões;
Mas não os tens, patria amada; És formosa sem senão; Tu, das nações do Universo, Es a mais bella nação.
Bem como a lua ás estrellas Em fulgores ultrapassa, Assim tu, paiz querido, Aos outros vences na graça!
Linda terra do meu berço, Quanto me viras folgar, Si a trôco de minha vida Te fizesse prosperar!
Mas não posso defender-te Contra bellicos furores; Só tenho, p'ra dar-te, um peito, Que por ti morre de amores;
Um peito, que ardente e louco, Sabe por ti palpitar; Que exulta com teus triumphos, Que chóra com teu penar.
Tu és a copia formosa Do paraizo de Adão; Tu, das nações do Universo, És a mais bella nação.
A ti, Vate, que prézas meus versos, Eu na lyra tentára cantar, Si essa lyra divina tivera, Que tu sabes tão bem dedilhar.
Mas, qu'importa que louve teu genio 'N estes cantos tão rusticos meus, Si os humildes insectos da terra Tambem erguem louvores a Deus?
Eu, Poéta, aprecio, e admiro De teu genio o superno condão; Pasmo, ao ver amplo vôo eleval-o A ethérea, immortal região!
Tua lyra, por Deus afinada, Como harpa de Archanjos resôa,
Si amarguras entôa da vida, Si de amor as delicias entôa.
Um caminho juncado de rosas, O Senhor ordenou-te seguir; Para ti, com justiça, prepara Escolhido, brilhante porvir.
Oh! prosegue na senda de gloria Que te abrio o Supremo Juiz! Não recues, si houver nella espinhos; Os espinhos serão teu matiz!