Portuguese poem
Do que gosto
by Adélia Josefina de Castro Fonseca (1827–1920)
Eu gósto de ver o mar azulado Douradas areias sereno banhar; Eu gósto de vel-o bramir iracundo E sobre rochedos a furia quebrar.
Eu gósto de ver um céu de saphiras, Um céu de Janeiro com almo luar; Eu gósto de vel-o bem negro e medonho Terrivel mostrando querer desabar.
Eu gósto de ver o sol radiante No rôxo horisonte formoso assomando; Eu gósto de vel-o, da tarde no termo, A fronte abrasada no mar mergulhando.
Eu gósto de ver a triste rolinha Carpir do consorte saudades na ausencia; Eu gósto de vel-a amante, extremosa, Manter dos filhinhos a tenue existencia.
Eu gósto de ver a rosa entre-aberta, E mais—rociada das gôtas do orvalho; Eu gósto de vel-a, nos dias d’inverno, Em triste desmaio pendente do galho.
Eu gósto de ver o niveo cordeiro Na relva viçosa mansinho dormindo; Eu gósto de ver o tigre indomável No centro das matas sanhudo rugindo,
Eu gósto de ver um campo esmaltado De bellas florinhas, que espalhem odor; Eu gósto de vel-o bem àrido, inculto, Sem flor, sem perfumes, que inspirem amor.
E mais que do sol, do céu, do cordeiro, Do campo, da rosa, da rôla e do mar, Eu gósto de ver da linda Sophia Um riso nos labios, divino, pousar.