Portuguese poem
Minha estrela
by Adélia Josefina de Castro Fonseca (1827–1920)
Eu a vi, mas passando apressada, Qual meteóro brilhante a luzir; Eu a vi, e estampada em minh′alma Se ficou para emquanto existir. A. F. Colim.
Eras tu, eras tu, qu'eu sonhava, A. Herculano.
Meu pobre coração louco Em vão tentava animar-me, E nova esperança dar-me, Que não podia durar; Sim em vão; que dentro em pouco Os quadros, que a phantasia, Risonhos, pintado havia, Vinha o pranto desbotar.
Assim via ir-se escoando O meu viver ′n este mundo, E com desgosto profundo Irem-se as noites no céu... Essas noites que, passando, Uma após outra, arrancavam As esp′ranças, que brotavam No puro coração meu.
Mas elle, sempre teimoso, Co′a maior perseverança Plantava nova esperança, Pensando colher-lhe a flôr! Não sabia o desditoso Que ás sévas leis da má sorte —
Da terra o poder mais forte Não ousa obstaculos pôr!
Em vão pretendia a mente Ao meu doudo coração Os conselhos da razão Fazer attento escutar; Em vão dizia ao imprudente Que teima tão prolongada, ′N esta vida limitada, Era insano delirar.
A nada ouvidos prestava, E, na mais louca porfia, Logo que a noite estendia Sobre a terra o immenso véu, Ancioso elle procurava Ver o seu astro radiante Entre o cortejo brilhante, Que passeiava no céu.
E ia assim consumindo ′N esse cansado desejo,
Triste, mesquinho sobejo De vida tão gasta já; De vida que, á luz eu vindo, ′N este oceano de dores, ′N um de seus impios rigores Fadára-me a sorte má.
Mas um dia em que assomando, Tinha a noite desdobrado, Nitido manto esmaltado Todo d′estrelaas mimosas, A minha não divisando Entre o concilio luzido, Que do meu paiz querido As noites faz tão formosas,
«É impossivel — dizia — «Que Deus se lembre de mim, «E minh′alma deixe assim «Curtir tamanho pezar! «Deus, que as dôres allivia «Com seu influxo divino, «Porque, vendo o meu destino, «Não quer a minha abrandar?
«Todos teem a sua estrella «Mais formosa, ou menos bella; «Podem conversar com ella, «E admirar-lhe o fulgor; «Mas a minha onde está?.. onde?... «Porque me foge e s′esconde?... «Porque meiga não responde «Ao meu reclamo de amor?
«Deixa, meu Deus, qu′eu a veja, «Inda que um instante seja, «E que tão risonha esteja, «Qual tenho-a visto a sonhar; «Que possa, de hoje em diante, «A lembrança d′esse instante, «′N um dôce enlevo constante; «A minha vida aditar.
«Ah! Senhor! tem piedade, «Por tua summa bondade, «D′esta cruel anciedade, «Que me tortura o viver! «Si te move meu tormento, «Deixa, se-quer um momento,
«Que eu possa no firmamento «Minha estrella amada ver!»
Depois triste, desolada, Amargo pranto vertia, Que, mais que a vóz, exprimia Minha aguda, intensa dôr... E essa pena exacerbada Vendo lá do santo Empyreo, Deus ao meu longo martyrio Quiz piedoso termo pôr.
Sim — o pranto caudal, que dos olhos Pela angustia brotava arrancado, Conseguiu que o Senhor derogasse Os decretos crueis de meu fado.
Atravéz da torrente de lagrimas, Que turvava o cansado olhar meu, Vi, mais linda que as outras estrellas, Minha estrella luzindo no céu.
Eu a vi como a tinha sonhado, Como a tinha pedido ao Senhor, Um composto de mimo e doçura, Um esmero intenso de amor.
Um instante somente durára Tão suave, tão grata visão... Apagou-se, bem como se apaga Do relampago o breve clarão!
Mas qu′importa que Deus a deixasse Um instante somente luzir, Si eu a vi, e estampada em minh′alma Me ficou para enquanto existir?
Que m′importa, que os olhos do corpo Não n-a possam no céu avistar, Si co′os olhos d'est'alma eu a vejo Dentro em meu coração fulgurar ?
Sím — qu′importa, si eu sei qu′ella existe Si eu a vi me sorrir com ternura? Si da nuvem opáca, que a cobre, Minha mente atravessa a espessura,
E a vê, qual eu tinha sonhado, Qual eu tinha pedido ao Senhor, Um composto de graça e doçura, Um esmero mimoso de amor?!...
Sou feliz, porque guardo a lembrança De seu meigo, encantado sorrir, Que me deixa zombar d′essa nuvem, Que a meus olhos a quer encobrir!