Versos Portuguese Adélia Josefina de Castro Fonseca Não sei

Portuguese poem

Não sei

by (1827–1920)

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Não sei si acredite, sí vá duvidando Que os olhos não mentem.

J. Palha.

′Num labyrintho de ideias Minha mente confundida, Sem luz, que lhe aclare as trevas, Em que se acha envolvida, Em dubio estado divaga, Sem atinar co′a sahida.

Tu, sim, que melhor conheces O humano coração, Que tens mais experiencia D′este mundo de ficção, Deves saber si esses olhos Exprimem verdade, ou não.

Com perfeição elles sabem Amor, ternura exprimir; Mas sei eu si então reflectem Do coração o sentir? A mentira, da verdade, Como ′n elles distinguir?

Ás vezes, quando, mais ternos, Mais desfeitos em langôr, Na dôce expressão revelam

Um paraiso de amor, Eu penso existir na terra Um dos anjos do Senhor.

E como então não ter crença No que me diz esse olhar? Acaso os olhos de um anjo Póde a mentira manchar? Quando os julgo tão divinos, Posso d′elles duvidar?

Ah! eu jamais perderia Esta fagueira illusão, Si ′n elles sempre encontrasse Tão angelica expressão; Si ás vezes não deslumbrassem Como do raio o clarão.

Si, quando mais abrasados, Mais ardentes a luzir, Parecendo estarem d′alma Todo o fôgo a reflectir, Os labios lhes não viessem O que dizem, desmentir!

Si confirmassem os labios D′esses olhos a expressão, Si aquelles fossem de fôgo, Quando estes de fôgo são, Minha mente não ficára Em tamanha confusão.

Mas, como o fôgo dos olhos Acreditar, no momento Em que os labios me asseguram Ser gelado o sentimento?! Querer ver quaes são os falsos, Não é buscar um tormento?

De gêlo a palavra, opposta Das vistas á chamma ateada, Faz-me pasmar, sem que saiba O que me torna assombrada; Si o raio ardente das vistas, Ou si a palavra gelada!

Si são os labios, si os olhos Que mentem, dizer não sei; Do labyrintho, em que vivo,

Dês-que sabel-o intentei, Que fio tirar-me póde? Como d′elle sahirei?

Tu, pois, que melhor conheces O humano coração, Que tens mais experiencia D′este mundo de ficção, Deves saber si esses olhos Exprimem verdade, ou não.

Não me dirijas perguntas, Ás quaes não sei responder; Não pretendas que te explique O que mal posso entender; Vem antes, com tuas luzes, Minha mente esclarecer.