Portuguese poem
Os postiguinhos
by Adélia Josefina de Castro Fonseca (1827–1920)
Dous singelos postiguinhos Fez-te Angelina notar; Dizendo qu′eu os amava, Tambem os quizeste amar.
Si o meu amor conhecendo, D′elles tanto góstas já; Sabendo o que vou contar-te; Teu affecto augmentará.
Quero dizer-te uma cousa... Mas de a dizer tenho medo: Paraque fique tranquilla, Te peço guardes segredo.
Nem das paredes confies Aquillo qu′eu te contar; Que, si o souber, Angelina Ha de commigo ralhar.
Me ha de chamar palradora; Ha de queixar-se de mim; Ha de ficar arrufada, E não quero vel-a assim.
Esperando que observes O sigillo que te peço, Mais socegada, a tal cousa À revelar-te começo.
Sabe que nos postiguinhos, — Que tambem quizeste amar, —
Todos os dias risonha, Vai-se Angelina mirar.
′N elles vai, com desculpavel, Requintada faceirice, Procurar a affirmativa Do que o espelho já lhe disse.
Si visses ′n esses momentos Os seus meneios gentis, E radiar ′n ella toda A mocidade feliz,
Ficáras embevecido Esse quadro contemplando, Que a mais dôce das venturas Te iria n′alma infiltrando.
Ficáras, qual eu me sinto, Quando a vejo assim faceira Em frente dos postiguinhos A meneiar-se ligeira.
Tu, porem, que ver não pódes Esse quadro encantador, Que debuxado parece Por mão do travesso Amor,
Imagina-o, si podéres; Que, depois de o imaginar, Juro que has de um idólatra Dos postiguinhos ficar.