Portuguese poem
Tua lira
by Adélia Josefina de Castro Fonseca (1827–1920)
Deu-te o Senhor uma lyra, Que suspira Com seraphica doçura; Deu-te o mimo mais querido, Mais subido, Que dar póde á creatura.
Quando os meigos sons desata, Arrebata, Extasia os corações, Que ao céu se vão elevando, Escutando Tão dôces modulações;
Dôces como a meiga lua, De véu nua, Que, nas noites de Janeiro, Mostra a face tão formosa, Tão mimosa, No puro céu brasileiro;
Como os threnos afinados, Escapados Da frauta na solidão, Por leve aragem trazidos Aos ouvidos, Ou antes ao coração.
Qual a onda, que se espraia Pela praia Queixumes a murmurar,
Qual saudosa philomela, Terna e bella, Endeixas a gorgeiar;
Assim a tua voz sôa, Quando entôa Carmes cheios de tristura; Assim falla a tua lyra, E suspira, Com seraphica doçura.
Tu herdaste a voz queixosa, Maviosa, Que Bernardim desferia, Quando lá de sua terra Sobre a serra, Fundas saudades carpia;
Quando, de dôr esmagado E cortado, Via o misero infeliz O baixel que se alongava, E levava Sua fiel Beatriz
A Beatriz qu'elle amava, Que adorava Com esse exaltado amor, Que, santo e mystico, bate Só do Vate No peito cheio de ardor!
Tu herdaste a voz queixosa, Maviosa, Que Bernardim desferia, Quando lá de sua terra Sobre a serra, Fundas saudades carpia.
Ah! si minha musa triste Não ouviste Louvar-te em cadente lyra, É que á minha triste musa Deus recusa O genio, que á tua inspira.
Bem quizera a sem-ventura A doçura De tua lyra imitar,
E dizer-te o enlêvo immenso, Com que penso Nos teus versos d’encantar,
Mas em vão a pobresinha Se amesquinha ’N este impotente querer; Em vão; que bem que sobejo, O desejo Supprir não póde ao saber.
Assim, não sabe a coitada Dizer nada, Que possa agradar-te; não Mal concede-lhe o destino, Dar-te um hymno De devota gratidão.