Portuguese poem
O delírio
by Adélia Josefina de Castro Fonseca (1827–1920)
Já o sol esconde a fronte Por detraz de altivo monte, Deixando lá no horizonte Vestígios do seu fulgor; Já 'n essas nuvens douradas, 'N essas fitas abrasadas, Deixa as ardentes pegádas Do seu ardente esplendor.
A noite já se avisinha, E vem achar-me sosinha Entregue á saudade minha, Que me fadou sorte ingrata!
Saudade que, mais se augmenta Logo que o dia se ausenta, E mais profunda e violenta Me desespera, me mata!
Porque dizes, Luso Vate, Que da tarde no remate, O nosso coração bate Com dôce melancolia? Porque ousaste affirmar, Qu'era bello então scismar Essa ventura sem par, Cheia de terna poesia?!
Tu não disseste a verdade; Não luz a felicidade A quem profunda saudade Negreja no coração! Não! não desfructa tal dita, Quem da ventura é proscripta; Quem soffre a dôr infinita De desgraçada paixão!
Feliz no termo do dia, É quem um'alma tem morna; Onde essa melancolia Dôce, o crepusculo entorna; Mas quem no peito vehemente Palpitar continuo sente Abrasado o coração, Quem tóca, amando, á loucura, No que tu achas ventura, Não póde achar-te razão!!
Quando o sol no firmamento Mais brilhante resplandece, Diminuir o tormento Em nosso peito, parece; Esse tumulto do dia, Tão despido de poesia, Como qu'impede o pensar; Do negro fel da desgraça Não esgotamos a taça, Que o seu calor faz secar.
Como, pois, grande Poéta, Póde fruir dôce calma, Quem, co'a noite ervada séta
Penetrar sente em sua alma? Sim, como scismar venturas Póde, quem mais amarguras Sorve no calix de amor, 'N essas horas de anciedade, Em que mais punge a saudade, Em que mais recresce a dôr?!
Não creias, Vate, comtudo Que me apraz a luz do dia Porque serve-me d'escudo Aos assaltos da agonia; Não! eu só desejo e adóro Estas horas em que chóro Com tão intenso penar; Porque amo com delirio O incessante martyrio D'esta loucura de amar!!