Portuguese poem
Teus olhos
by Adélia Josefina de Castro Fonseca (1827–1920)
Seus olhos tão negros, tão bellos, tão puros, Assim é que são; Às vezes luzindo serenos, tranquillos, As vezes volcão. A. G. Dias.
Estrellas, que bordais o véu da noite, O que sois, que valeis ante seus ólhos? F. Moniz Barreto.
I
Angelina, teus ólhos tão pretos Em teu rosto brilhando incendidos, São dous negros, gentis diamantes, Pelo astro do dia feridos.
São dous negros, gentis diamantes, Que das mãos do Eterno sahiram, E que, os ares rompendo ligeiros, Sobre nivea açucena cahiram.
Sobre ella mais negros parecem, Que madeixas de grêga formosa, E si a grêga avistára teus ólhos, De avistal-os gemera ciosa;
Que teus ólhos tão bellos, tão pretos, Em teu rosto brilhando incendidos, São dous negros, gentis diamantes, Pelo astro do dia feridos.
São mais negros que as trévas, que cercam Tristes dias do cégo, aziagos; Mais brilhantes que a nitida estrella, Que serviu de pharol aos tres Magos.
II.
Assim como 'n um mar procelloso, Fragil barca, do vento á mercê,
Ora vê-se arrastada aos abysmos, Ora ás nuvens erguida se vê;
E, querendo luctar co'a tormenta, De baldados esforços redobra, Que, batida por túmidas vagas, Infeliz, sem remedio, sossobra;
Assim 'n esses teus ólhos tão negros, Em teu rosto incendidos a arder, Não podendo escapar ao perigo, Vai a triste razão perecer!
São teus ólhos fataes á mesquinha, Quando fervem, qual mar em furor; São fataes, si a scismar se desfazem Em torrentes de meigo langor.
Os teus ólhos, ás vezes, parecem Com insólito ardente luzir, Outros ólhos buscar abrasados, Onde possam seus raios fundir;
Outros ólhos, que as chammas reflictam D’essa negra pupilla brilhante, Respondendo á mudez eloquente De teu magico olhar fascinante.
III.
Qual nos vastos desertos da Arabia, O sedento, infeliz viajor, Que não acha uma fonte, que possa Mitigar-lhe da sede o ardor;
E que sente crescer-lhe esse fôgo, Nem ao menos achar sombra amiga, Onde o brando bafejo das auras O consóle de tanta fadiga;
Assim quem vê os teus ólhos Em teu brilhando, Como o da Arabia Com seu ardentes queimando.
Quem teus ólhos ver póde animados, Sem de amores mil vezes morrer?! Si, qual barca no mar procelloso, 'N elles vai a razão perecer?!
Inda aquelle, em quem frio, e bem frio, Coração, quasi gêlo, pulsasse, E o amor, tão estranho á su'alma, Vã palavra no mundo julgasse;
Apezar de gelado, se vira Esse fôgo, que os olhos t'inflamma, De um amor, que julgava impossivel, Sentiria abrasar-se na chamma;
E ficára, bem como, na Arabia, O sedento, infeliz viajor, Que não acha uma fonte, que possa Mitigar-lhe da sêde o ardor!
IV.
Angelina, são teus olhos Dous escolhos,
Onde naufraga a razão; Attrahe o seu mago encanto, Qual das sereias o canto Attrahia á perdição!
Quando inflammados á arder, Que poder Ha de a elles resistir, Si, nos raios, que dardejam, Os corações só desejam Inteiros se consumir?
A seu magnetico lume, Mal presume Que fugir póde, a razão; Que, na porfiada lida, Succumbe a alma vencida Por tamanha tentação.
E não só quando brilhante, Deslumbrante, É teu olhar tentador; Á perdição leva o peito, Quando se move desfeito Em torrentes de langor!...
Quem ha, pois, á tua vista, Que resista, Que se não deixe tentar? Que não deseje contente 'N essa languida torrente Seus ardores afogar?...
E d'essa negra pupilla, Que scintilla Com tão frouxo scintillar, Como a luz enfraquecida De uma lampada esquecida, Que ninguém veio animar,
Ir no raio desmaiado, Com ousado, Sôfrego, labio colher De vida tenue parcella, Qu´essa pupilla tão bella Em si parece conter?
Resistir a tal encanto Nem um santo! E que santo se esquivar
Ao teu olhar poderia, Que só a Deus não teria O mago dom de tentar?!
A seu magnetico lume, Mal presume Que fugir póde, a razão; Que, na porfiada lida, Succumbe a alma, vencida Por tamanha tentação!!