Versos Portuguese Adélia Josefina de Castro Fonseca Uma queixa

Portuguese poem

Uma queixa

by (1827–1920)

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E' um dos milagres de amor o fazer que achemos prazer no soffrimento, e olhariamos como a maior desgraça, um estado de indif- ferença e de esquecimento, que nos tirasse todo o sentimento de nossas penas. J. J. Rosseau.

Meu Deus! porque derramaste Dôr tamanha em minha vida? Porque afagar me deixaste Uma esperança querida, Que havia ser-me arrancada, Que tinha de ver perdida?

O porvir, que, lisongeira, Me promettia risonho, Porque tu me não consentes Gozar ao menos n um sonho? Porque o envolves em trévas, Porque o fazes tão medonho?!

Ah! Senhor! dá-me de novo Esses annos tão gentis, Esses dias tão viçosos De meus brincos infantis, Em que eu tinha uma esperança, Que me tornava feliz;

Que, de flôres esmaltado, Um caminho me apontava, O qual percorrer commigo Fagueira me assegurava, E conduzir-me á ventura, Que d'elle no fim raiava!

Então eu suppunha lenta Do tempo a fugaz carreira, Que eu bem quizera tão rapida

Qual fantasia ligeira, Más que tanto me afastava D’essa ventura fagueira.

Como anhelante aguardava O termo d’essa tardança, Animada de continuo Por enganosa esperança, Em que minh’alma depunha, Céga, inteira confiança!

E que, então, mal suspeitava Que saudades sentiria D'esse tempo de folguêdos, Que tão lento parecia; Tempo que a meiga innocencia De prazeres me tecia.

Hoje recordo saudosa Esses annos tão gentis, Esses dias tão viçosos De meus brincos infantis, Em qu’eu tinha uma esperança, Que me tornava feliz.

Ai! da ventura o caminho, Que me sorria tão perto, Vi sem flôres, sem aromas, E só d’espinhos coberto!.. Abandonou-me a esperança, Que p’ra mim o tinha aberto!

Esta ideia do passado A dôr me torna mais forte; Angustiada prantêo Os tractos da dura sorte ; Mas, para findar meus males, Ao Senhor não peço a morte.

Não peço; que não n-a quero; A morte é — tudo olvidar; — Gêlo, que o peito entorpece, Que o priva de palpitar; É — termo de soffrimentos; — Mas tambem é — não amar. —

Não, não peço; que prefiro Tudo no mundo soffrer— A origem de meus males

No peito apagada ter; Quero, embora me atormente, Este penado viver.

Sorte! sorte! si desejas Ferir-me com mais rigor, Contra mim teus golpes vibra, Multiplica a minha dôr; Priva-me embora de tudo, Deixa-me só meu amor!