Portuguese poem
O céu de agosto
by Adélia Josefina de Castro Fonseca (1827–1920)
De teu bello natal prazenteiro Vi o dia feliz despontar; Vi a aurora no vasto horizonte, Mais formosa que nunca, assomar.
Era linda, qual rósea capella Sobre a fronte de virgem louçã; Era tão perfumada, e tão leda, Como festa d'igreja christã.
Ella estava co'a dôce alegria Debuxada na face gentil; Alegria, qu'é só das auroras, Como esta, do nosso Brasil.
Eu, então, venturosa julguei-me, Vendo-a assim pelo céu passeiar; Mas, após, de tristeza uma nuvem Veio minha ventura toldar.
E sabes qual o motivo De tão subita tristeza, Quando toda a natureza De galas se revestiu? Sabes porque pezarosa Via,—quasi lacrimosa,— Essa aurora tão formosa, Que lá do céu me sorriu?
Era um pincel encantado, Que minh’alma cubiçava Para o céu, que assim primava
Em lindezas,—copiar.
Era o pincel milagroso De Raphael portentoso, Que o seu nome glorioso Té aos astros fez chegar.
Ah! si de Italia o Apelles, 'N aquelles arroubos santos, Porventura um céu de encantos Alguma vez desenhou, —Por certo me não engano— D'esse genio italiano, O talento soberano Com o céu do Brasil sonhou.
Sim, co'o céu americano, Que tão puro resplandece, Que n elle habitar parece O Senhor co'os anjos seus. Ah! que si o céu contemplára Da nossa terra tão cára, O athèu não mais negára A existencia de Deus.
Não, si o manto de saphiras,
Que envolve o céu prazenteiro
D’este Agosto brasileiro, Elle podesse avistar; Si visse da lua cheia, Quando a noite é quasi meia, Com que doçura passeia O raio argenteo no mar;
Essa existencia divina Revelada lhe seria; Su'alma despertaria Da crença eterna ao clarão. Então, á fé convertido, Encantado, arrependido, Exclamára embevecido:
—Creio em ti, meu Deus! perdão!