Versos Portuguese Adélia Josefina de Castro Fonseca Minha lira

Portuguese poem

Minha lira

by (1827–1920)

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Fui, Angelina querida, D’amisade estremecida Na bella corda tocar; Más, por mais que desejasse, Nunca um som, que me agradasse, Pude da lyra tirar!

Angelina, a minha lyra, Triste, mui triste suspira, Suspira com afflicção;

A pobresinha, —coitada!— Não sabe repetir nada Do que diz meu coração.

Não sabe num canto lindo, —O meu coração ouvindo,— Dizer seu sentir profundo; Dizer que muito te quero, Qu'em adorar-te me esmero, Que és meu consôlo no mundo;

Que a par de ti sou contente, E esqueço uma dor pungente— Ella não sabe dizer; Que dissipas o desgosto, Que ás vezes me alaga o rosto, Que ás vezes me faz gemer;

Que olvido amarga saudade Nos transportes de amisade Que tu me dás a fruir; Saudade, que, não te vendo, Me entréga a martyrio horrendo Na dôr que me faz curtir.

Não diz que, só a teu lado, Doce prazer, não gozado, Minh’alma gozar alcança; Não conta que te dedico Um peito de affectos rico, Rico de tua lembrança.

Para que me serve a mim, Esta lyra de marfim Córdas de ouro possuir, Si este sentir de meu peito Ella não sabe com geito, Com perfeição exprimir?

Porque a pobre lyra minha Ha de ser assim mesquinha, Ha de ter tanta rudeza? Porque, na dourada córda, Com doçura não transborda Do meu affecto a grandeza?

Quanto não é dura a sorte, Que uma amisade tão forte Me não consente expressar!

Que lyra me dá tão bella, Depois de arrancar-me d’ella O mago dom de encantar!

Para que me serve a mim, Esta lyra de marfim Córdas de ouro possuir, Si este sentir de meu peito, Ella não sabe com geito, Com perfeição exprimir?

Ah! si a ella a sorte avára Dér um dia uma voz clara, Uma voz toda divina, Então, com terna doçura, Dirá a doce ternura Com que te adoro, Angelina.