Versos Portuguese Adélia Josefina de Castro Fonseca Fala-te?

Portuguese poem

Fala-te?

by (1827–1920)

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O que te diz, dôce amiga, O que te diz essa estrella, Que em tuas longas vigilias Sempre te ri, meiga e bella?

Essa estrella que, mimosa, No firmamento fulgura; Em que fitas meigos olhos, Repassados de ternura?

Que atravéz de claro vidro Nas insomnias te apparece, Qual companheira extremosa, Que de ti jamais se esquece?

Vem as lembranças queridas Do passado te avivar? Ou as venturas, que sonhas, Te promette realisar?

Si assim é, porque tão triste A contemplas, suspirando, E de Ophir liquidas per'las 'Stão teus olhos distillando?

Acaso não acreditas No qu'essa estrella te diz?! Tão bella, tão virtuosa, Receias ser infeliz?

Ah! receias que te engane A companheira mimosa, Que em tuas longas vigilias Sempre te ri carinhosa?!

Que, com dolosos protestos Ella te queira illudir? Que, fraudulenta, procure De chimeras te nutrir?!

Desterra esses vãos temores; Vê como te olha enlevada; Confia na mensageira A ti por Deus enviada.

E porque has de em tu'alma Aninhar cruel suspeita? Reflectida n essa estrella Não sabes quanto és perfeita?

Havia o Senhor crear-te, Adrede, gentil e pura, Para que fosse a desgraça Partilha da formosura?

Não o creias, não o temas; Deus, que te fez tão formosa, Quer, Angelina, que sejas Quanto bella, venturosa.

Deixa chorar seu destino, Quem não tem, como tu tens, Uma estrella, que, luzindo, Lhe vaticine mil bens;

Quem o seu astro querido No céu não póde avistar, Senão coberto de nuvens, Que o privam de fulgurar;

Quem do passado só guarda Recordação, que o lacera; Quem aborrece o presente; Quem do porvir nada espera.

Tu, porem, anjo, acredita No qu'essa estrella te diz; Tão bella, tão virtuosa, Não temas ser infeliz.