Versos Portuguese Alexandre Herculano Segunda Serie — IX (Bello ermo! eu hei-de amar-te…)

Portuguese poem

Segunda Serie — IX (Bello ermo! eu hei-de amar-te…)

by (1810–1877)

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Bello ermo! eu hei-de amar-te, em quanto est'alma, Aspirando o futuro além da vida, E um halito dos ceus, gemer, atada Á columna do exilio, a que se chama, Em lingua vil e mentirosa, o mundo. Eu hei-de amar-te, oh valle, como um filho Dos sonhos meus. A imagem do deserto Guarda-la-hei no coração, bem juncto Com minha fé, meu unico thesouro.

Qual pomposo jardim de verme illustre, Chamado rei ou nobre, ha-de comtigo Comparar-se, oh deserto?—Aqui não cresce Em vaso de alabastro a flor captiva, Ou arvore educada, por mão do homem, Que lhe diga: és escrava: e erga um ferro, E lhe decepe os troncos. Como é livre A vaga do oceano, é livre no ermo A bonina rasteira, e o freixo altivo: Não lhes diz: nasce aqui, ou lá não cresças: Humana voz. Se baqueou o freixo, Deus o mandou; se a flor pendida murcha, É que o rocio não desceu de noite, E da vida o Senhor lhe nega a vida.

Ceu livre, terra livre, e livre a mente, Paz íntima, e saudade, mas saudade Que não doe, que não mirra, e que consola São as riquezas do ermo, onde sorriem Das procellas do mundo os que o deixaram.

Ahi, na branda encosta, hontem de noite, Alvejava por entre as azinheiras Do solitario a habitação tranquilla: E eu vagueei por lá: patente estava O pobre alvergue do eremita humilde, Onde jazia o filho da esperança, Sob as azas de Deus, á luz dos astros, Em leito, duro sim, não de remorsos, Oh, com quanto socego o bom do velho Dormia!—A leve aragem lhe ondeava As raras cãas na fronte, onde se lia A bella historia de passados annos. De alto choupo atravez passava um raio Da lua—astro de paz, astro que chama Os olhos para o ceu, e a Deus a mente— E em luz pallida as faces lhe banhava: E talvez neste raio o Pae celeste Da patria eterna lhe enviava a imagem, Que o sorriso dos labios lhe fugia, Como se um sonho de ventura e gloria Na terra de antemão o consolasse. E eu comparei o solitario obscuro Ao inquieto filho das cidades;

Comparei o deserto silencioso Ao perpétuo ruido que sussurra Pelos palacios do abastado e nobre, Pelos paços dos reis; e condoí-me Do cortesão suberbo, que só cura De honras, haveres, gloria, que se compram Com maldicções e perennal remorso. Gloria!—A sua qual é?—Pelas campinas, Cubertas de cadaveres, regadas De negro sangue, elle segou seus louros; Louros que vão cingir-lhe a fronte altiva, Ao som do choro da viuva, e do orpham; Ou, dos sustos senhor, em seu delirio, Os homens—seus irmãos—flagella e opprime. Lá o filho do pó se julga um nume, Porque a terra o adorou: o desgraçado Pensa, talvez, que o verme dos sepulchros Nunca se ha-de chegar, para traga-lo, Ao banquete da morte, imaginando Que uma lagem de marmore, que esconde O cadaver do grande, é mais duravel Do que esse chão sem inscripção, sem nome, Por onde o oppresso, o misero, procura O repouso, e se atira aos pés do throno Do Omnipotente, a demandar justiça Contra os fortes do mundo—os seus tyrannos.