Portuguese poem
Segunda Serie — V (Escalvado penedo, que repousas)
by Alexandre Herculano (1810–1877)
Escalvado penedo, que repousas Lá no cimo do monte, ameaçando Ruina ás matas de alecrim e murta, Que nesta encosta ondeam, meneadas Pelo vento do sul, foste já lindo, Já te cubriram cespedes virentes; Mas o tempo voou, e nelle involta A tua formosura: as grossas chuvas, Despedidas das nuvens, se arrojaram Sobre ti, oh rochedo, arrebatando A terra e o viço, que te ornava o cimo. Eis-te nú esqueleto!—o sol queimou-te: Tua alvura passou: tão negro és hoje, Quanto de mar erguido escuras vagas.
Cáveira da montanha, ossada immensa, É tua campa o ceu: sepulchro o valle Um dia te será. Quando sentires Rugir com som medonho a terra ao longe, Na expansão dos volcões, e o mar bramindo, Lançar á praia vagalhões cruzados; Tremer-te a larga base, e sacudir-te Do vasto dorso, o fundo deste valle Te váe servir de tumulo: e os carvalhos Do mundo primogenitos, e os freixos, Arrastados por ti lá da collina, Comtigo hão-de jazer.—De novo a terra Te cubrirá o dorso sinuoso: Outra vez sobre ti nascendo os lyrios, Do seu puro candor hão-de adornar-te: E tu, ora medonho, e nú, e triste, Ainda bello serás, vestido e alegre.
Mais que o homem feliz!—Quando eu no valle Dos tumulos cair; quando uma pedra Os ossos me esmagar, se me fôr dada, Não mais reviverei: não mais meus olhos Verão o pôr do sol, em dia estivo, Se em turbilhões de purpura, que ondeam Pelo extremo dos céus sobre o occidente, Váe provar que um Deus ha a estranhos povos, E alem das ondas tremulo sumir-se; Nem, quando, lá do cimo das montanhas, Com torrentes de luz inunda as veigas: Nem mais verei o refulgir da lua No irrequieto mar, na paz da noite, Por horas em que véla o criminoso, A quem íntima voz rouba o socego, E em que o justo descança, ou, solitario, Ergue ao Senhor um hiymno harmonioso.
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