Versos Portuguese Alexandre Herculano Segunda Serie — X (Oh cidade, cidade, que trasbordas)

Portuguese poem

Segunda Serie — X (Oh cidade, cidade, que trasbordas)

by (1810–1877)

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Oh cidade, cidade, que trasbordas De vicios, de paixões, e de amarguras! Tu lá estás, na tua pompa involta, Suberba prostituta, alardeando Os theatros, e os paços, e o ruido Das carroças dos nobres, recamadas De ouro e prata, e os praseres de uma vida Tempestuosa, e o tropear contínuo Dos férvidos ginetes, que alevantam O pó e o lodo cortesão das praças; E as gerações corruptas de teus filhos Lá se revolvem, qual montão de vermes Sobre um cadaver putrido!—Cidade, Branqueado sepulchro, que misturas A opulencia, a miseria, a dôr e o goso, Honra, infamia, pudor, e impudicicia, Ceu e inferno, que és tu?—Escarneo ou gloria Da humanidade?—O que o souber que o diga!

Bem negra avulta aqui, na paz do valle, A imagem desse povo, que reflue Das moradas á rua, á praça, ao templo, Que a noite sorve, e que vomita o dia, Que ri, e chora, e folga, e geme, e morre, Que adora Deus, e que o pragueja, e o teme; Absurdo mixto de baixesa extrema E de extrema ousadia; vulto enorme, Ora aos pés de um vil despota estendido, Ora surgindo, e arremessando ao nada As memorias dos seculos que foram; E depois sobre o nada adormecendo.

Vê-lo, rico de opprobrio, ir assentar-se Em joelhos, nos atrios dos tyrannos, Onde, entre o lampejar de armas de servos, O servo popular adora um tigre? Esse tigre é o idolo do povo! Saudae-o; que elle o manda: abençoae-lhe O ferreo sceptro: ide folgar em roda De cadafalsos, povoados sempre De victimas illustres, cujo arranco Seja como harmonia, que adormente, Em seus terrores, o senhor das turbas. Passae depois. Se a mão da Providencia Esmigalhou a fronte á tyrannia; Se o déspota caíu, e está deitado No lodaçal da sua infamia, a turba Lá vai buscar o sceptro dos terrores, E diz—é meu—; e assenta-se na praça; E involta em roto manto, e julga e reina. Se um ímpio, então, na affogueada boca De volcão popular sacode um facho, Eis o incendio que muge, e a lava sobe, E referve, e trasborda, e se derrama Pelas ruas além: clamor retumba De anarchia impudente, e o brilho de armas Pelo escuro transluz, como um presagio De assolação; e se amontoam vagas Desse mar d'abjecção, chamado o vulgo; Desse vulgo, que ao som de infernaes hymnos, Cava fundo da Patria a sepultura, Onde, abraçando a gloria do passado E do futuro a ultima esperança, As esmaga comsigo, e ri morrendo.

Tal és cidade, licenciosa ou serva! Outros louvem teus paços sumptuosos, Teu ouro, teu poder:—sentina impura Da corrupção, eu não serei teu bardo!