Versos Portuguese Alexandre Herculano Segunda Serie — VIII (É aqui neste valle, ao…)

Portuguese poem

Segunda Serie — VIII (É aqui neste valle, ao…)

by (1810–1877)

Listen in the reader

É aqui neste valle, ao qual não chega Humana voz e o tumultuar das turbas, Onde o nada da vida sonda livre O coração, que busca ir abrigar-se No futuro, e debaixo do amplo manto Da piedade de Deus: aqui serena Vem a imagem da campa, como a imagem Da patria ao desterrado: aqui, solemne, Brada a montanha, memorando a morte.

Essas penhas, que, lá no alto da encosta, Negras, despidas, dormem solitarias, Parecem imitar da sepultura O aspecto melancholico, e o repouso Tão desejado do que em Deus confia. Bem semelhante á paz, que se ha sentado Por seculos, alli, nas serranias, É o silencio do adro, onde reunem Os cyprestes e a cruz o céu e a terra.

Como tu vens cercado de esperança, Para o innocente, oh placido sepulchro! Juncto das tuas bordas pavorosas O perverso recúa horrorisado: Após si volve os olhos; na existencia Deserto árido só descobre ao longe, Onde a virtude não deixou um trilho. Mas o justo chegando á meta extrema, Que separa de nós a eternidade, Transpoem-a sem temor, e em Deus exulta. O infeliz e o feliz lá dormem ambos, Tranquillamente: e o trovador mesquinho, Que peregrino vagueou na terra, Sem encontrar um coração de fogo, Que o entendesse, a patria de seus sonhos, Ignota, por lá busca; e quando as eras Vierem juncto ás cinzas collocar-lhe Tardios louros, que escondêra a inveja, Elle não erguerá a mão mirrada, Para os cingir na regelada fronte. Justiça, gloria, amor, saudade, tudo, Ao pé da sepultura, é som perdido De harpa eolia esquecida em brenha ou selva: O despertar um pae, que saborea, Entre os braços, da morte o extremo somno, Já não é dado ao filial suspiro: Em vão o amante, alli, da amada sua De rosas sobre a c'roa debruçado, Rega de amargo pranto as murchas flores E a fria pedra: a pedra é sempre fria, E para sempre as flores se murcharam,