Portuguese poem
Segunda Serie — XI (Cantor da solidão, eu me…)
by Alexandre Herculano (1810–1877)
Cantor da solidão, eu me hei sentado Juncto do verde cespede do valle; E a paz de Deus do mundo me consola.
Avulta aqui, e alveja, entre o arvoredo, Um pobre conventinho. Homem piedoso O alevantou ha seculos, passando, Como orvalho do ceu, por este sitio, De virtudes depois tão rico e fertil. Como um pae de seus filhos rodeado, Pelos matos do outeiro o vão cercando Os tugurios de humildes eremitas, Onde o cilicio e a compuncção apagam Da lembrança de Deus passados erros Do peccador, que reclinou a fronte Penitente no pó. O sacerdote Dos remorsos lhe ouviu as amarguras; E perdoou-lhe, e consolou-o em nome Do que espirando perdoava, o Justo Que entre os humanos não achou piedade.
Religião! do misero conforto, Abrigo extremo de alma, que ha mirrado O longo agonisar de uma saudade, Da deshonra, do exilio, ou da injustiça, Tu consolas aquelle, que ouve o verbo, Que renovou o corrompido mundo, E que mil povos pouco a pouco ouviram. Nobre, plebeu, dominador, ou servo, O rico, o pobre, o valoroso, o fraco, Da desgraça no dia ajoelharam No limiar do solitario templo. Ao pé desse portal, que veste o musgo, Encontrou-os chorando o sacerdote, Que da serra descia á meia-noite, Pelo sino das preces convocado: Ahi os viu ao despontar do dia, Sob os raios do sol, ainda chorando. Passados mezes, o burel grosseiro, O leito de cortiça, e a fervorosa E contínua oração foram cerrando Nos corações dos miseros as chagas, Que o mundo sabe abrir, mas que não cura. Aqui, depois, qual halito suave Da primavera, lhes correu a vida, Até sumir-se no adro do convento, Debaixo de uma lagem tosca e humilde, Sem nome, nem palavra, que recorde O que a terra abrigou no somno extremo.
Eremiterio antigo, oh se podesses Dos annos que lá vão contar a historia; Se ora, á voz do cantor, possivel fosse Transsudar desse chão, gelado e mudo, O mudo pranto, em noites dolorosas, Por naufragos do mundo derramado Sobre elle, e aos pés da cruz!... se vós podesseis, Broncas pedras, fallar, o que dirieis!
Quantos nomes mimosos da ventura, Convertidos em fabula das gentes, Despertariam o eccho das montanhas, Se aos negros troncos do sobreiro antigo Mandasse o Eterno sussurrar a historia Dos que vieram desnudar-lhe o cepo, Para um leito formar, onde velassem Da magoa, ou do remorso as longas noites! Aqui veio talvez buscar asylo Um poderoso, outr'ora anjo da terra, Despenhado nas trévas do infortunio: Aqui, talvez, gemeu o amor trahido, Ou pela morte convertido em cancro De infernal desespero: aqui soaram Do arrependido os ultimos gemidos, Depois da vida derramada em gosos, Depois do goso convertido em tedio. Mas quem foram?—Na terra, onde deixaram Suas vestes mortaes, nenhum vestigio Resta dos nomes seus.—E isso que importa, Se Deus os viu; se as lagrymas dos tristes Elle contou, para as pagar com gloria?
Ainda em curvo outeiro, ao fim da senda, Que dos montes além conduz ao valle, Sobre o marco de pedra a cruz se eleva, Como um pharol de vida, em mar de escolhos: Ao christão infeliz acolhe no ermo, E consolando-o, diz-lhe: a patria tua É lá no ceu:—abraça-te comigo: Juncto della esses homens, que passaram Acurvados na dôr, as mãos ergueram Para o Deus, que perdoa, e que é conforto Dos que aos pés deste symbolo da esp'rança Vem derramar seu coração afflicto: É do deserto a historia a cruz e a campa; E sobre tudo o mais pousa o silencio.
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