Versos Portuguese Alexandre Herculano V (A noite escura desce: o…)

Portuguese poem

V (A noite escura desce: o…)

by (1810–1877)

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A noite escura desce: o sol de todo Nos mares se afogou: a luz dos mortos, Dos brandões o clarão fulgura ao longe, No cruzeiro somente e em volta da ara: E pelas naves começou ruído De compassado andar. Fiéis acodem A visitar o Eterno, e ouvir queixumes Do vate de Sion. Em breve os monges Lamentosas canções aos ceus erguendo, Sua voz unirão á voz desse orgam, E os sons e os écchos reboaráõ no templo. Mudo o côro depois, neste recinto Dentro em bem pouco reinará silencio, O silencio dos tumulos, e as trevas Cubrirão por esta área a luz escassa Despedida das lampadas, que pendem Ante os altares, bruxuleando frouxas. Imagem da existencia!—Em quanto passam Os dias infantís, as paixões tuas, Homem, qual então és, são debeis todas: Cresceste:—ei-las torrente, em cujo dorso Sobrenadam a dor, e o pranto, e o longo Gemido do remorso, a qual lançar-se Vai, com rouco estridor, no antro da morte, Lá onde é tudo horror, silencio, noite. Da vida tua instantes florescentes Foram dous, e não mais: as cãas e rugas, Breve, rebate de teu fim te deram. Tu foste apenas som, que o ar ferindo Se esvaíu pelo espaço immensuravel.

E a casa do Senhor ergueu-se!—o ferro Cortou a penedia; e o canto enorme. Polido alveja alli no espesso panno Do muro collossal, que ha visto as eras Velhas chegar, e adormecer-lhe ao lado: A faia e o sobro no caír rangeram Sob o machado: a trave affeiçoou-se; Lá na cimo pousou: restruge ao longe De martellos fragor, e eis ergue o templo, Por entre as nuvens, bronzeadas grimpas.

Homem, do que és capaz! Tu, cujo alento, Se esváe, como da cerva a leve pista No pó se apaga ao respirar da tarde, Do seio dessa terra em que és estranho Saír fazes as moles seculares, Que por ti, morto, fallem: dás na idéa Eterna duração ás obras tuas! Tua alma é immortal, e a prova a déste!